A paz sonhada

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25/10/09

Wanderley Soares


Há quem canta sem saber cantar. Ele dançava sem saber dançar.

Era um homem pequeno. Um baixinho. É bem verdade que as luzes dos bares noturnos tansformam as pessoas. As feias podem se tornar belas, e as belas mais belas ainda. Mas aquela luminosidade morrediça não modificava a realidade do homenzinho. Seria, creio, o mesmo, ainda que à luz do sol. Não era velho. Apenas madurão. Mas era feio. Não desses feios insalubres, vampirescos, amarrotados pelo tempo. Era um feio alegre, cheio de dentes, cabeleira vasta, que se desguedelhou ao longo da noite. Não o conhecia. Deveria habitar em noites distantes.

Era outono, mas estava quente. Além disso, o arcondicionado da casa nunca funcionou. Os ventiladores apenas renovavam o calor. Nada importante. Os notívagos chegam perfumados, refrescados pelo banho tomado, e depois se acostumam com o cheiro da nicotina, do álcool e até mesmo com os pingos do suor alheio. Enriquecendo a festa, o homenzinho estava dentro de um folgado traje azul-marinho, gravata com listras largas e oblíquas. No rosto, imensos óculos quadrados, que a toda hora escorriam e eram aparados pelas asas do nariz, e recompostos com o dedo indicador.

Ele chegou sozinho, mas não foi longa a sua solidão. Buscou uma mesa próxima da pista. Tinha ares de quem se sentia em casa. Pediu um chope, que tomou sem pressa. Logo encontrou um par. Simpática, baixinha, gordota. Gostaram-se, pois não se largaram mais. Dançaram toda a noite. Paravam só quando a banda parava. Ele afrouxou a gravata, e a fralda da camisa branca chegou a aparecer-lhe sob o casaco curto. Ela não se desalinhou. Sorria todo o tempo. Ele ria, parava, aplaudia a banda e atirava beijos para o mestre que acariciava os bordões de um violão de sete-cordas.

Há quem canta sem saber cantar. Ele dançava sem saber dançar. Ela a tudo acompanhava. Muitas vezes a banda variou de ritmos, mas nenhum deles era o dos passos dos dançarinos. A música, até atingi-los, passava por um processamento mágico e chegava-lhes como eles melhor entendiam. Eram muitos os pares, mas eles faziam a festa como se só eles existissem. Ainda hoje, foge-me a certeza se os outros pares notaram, como eu, a aparição dos baixinhos. Inclino-me a crer que para aqueles que não estavam envolvidos na mesma felicidade, os baixinhos eram invisíveis.

Fonte: www.jaymecopstein.com.br

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