2 fevereiro 2010
Este fim de semana, foi ao ar em Zero Hora o início de um especial denominado Os Infiltrados, que trata justamente de agentes infiltrados em grupos de resistência militante durante o período da ditadura. No momento o especial já conta com uma reportagem multimídia e dois artigos, aqui e aqui. Me abstenho de falar dos itens individuais e inicio aqui uma crítica contra o conjunto.
O especial da Zero Hora pinta a infiltração, a traição e a denúncia com tintas muito românticas, como heróicos espiões de folhetim a serviço do bem da nação. “Escalados para ser os olhos e os ouvidos do governo, os infiltrados agiram com a convicção de que prestavam serviços ao país. Expuseram-se a riscos, por acreditar que estavam do lado certo.”
Desaparecimentos, mortes, tortura? Nada disso é mencionado em nenhum momento a respeito do tal lado certo. “Uma das táticas do governo, para simples espionagem ou mesmo neutralizar os que considerava inimigos, foi espalhar agentes infiltrados entre os oposicionistas.” Reparem: SIMPLES espionagem ou MESMO neutralização. O que quer dizer neutralização? A palavra sugere um processo limpo e seguro, uma desinfecção, uma esterilização. Esterilização dos dissidentes, dos que protestavam, dos movimentos sociais, da esquerda? Não. Dos inimigos, apenas.
A tentativa do jornal de dar às matérias um texto agradável (se é que foi essa mesmo a motivação pra tantos eufemismos, o que eu duvido) transforma a espionagem em prol de uma ditadura numa aventura militante de proporções cinematográficas. “A aparência quase hippie tinha endereço certo: embora anticomunistas, os arapongas seguiam uma máxima do comunista chinês Mao Tsé Tung, a de que o militante deve ser, na multidão, como o peixe na água. E militantes eles eram…”
Zero Hora esquece que não está tratando de heróis de capa-e-espada, que está tratando de pessoas que conquistavam a confiança de outras mais fracas para depois entregá-las ao cárcere, à morte ou à tortura. E esquece que as feridas da ditadura no imaginário- pra não dizer nos corpos- de milhares de brasileiros ainda é forte demais para que seus leitores simplesmente degustem das histórias de “infiltrados” como que de um romancezinho de ficção.
Artigo de Luiza Monteiro
Fonte: http://jornalismob.wordpress.com/




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