Ricardo Orlandini, jornalista
Tenho comentado o quão importante é viver num Estado Democrático de Direito e com uma imprensa livre, onde todos possam manifestar suas opiniões.
Não escondo ou disfarço nenhum conceito ideológico que possuo, muito antes pelo contrário. Considero-me eclético e respeito opiniões divergentes da minha, pois ninguém é dono da verdade.
Por este fato, reconheço que muitas vezes os grupos de comunicação em nosso país extrapolaram o sentido jornalístico da verdade e opinião clara, em proveito próprio, utilizado-se de seu poderio para “manipular” os fatos.
Este é o caso relatado em “Beyond Citizen Kane” (Muito Além do Cidadão Kane) um documentário de televisão britânico de Simon Hartog produzido em 1993 para o Canal 4 do Reino Unido.
A obra detalha a posição dominante da Rede Globo na sociedade brasileira, debatendo a influência do grupo, seu poder e suas relações políticas.
O ex-presidente e fundador da Globo, Roberto Marinho, foi o principal alvo das críticas do documentário, sendo comparado a Charles Foster Kane, personagem criado em 1941 por Orson Welles para “Cidadão Kane”, um drama de ficção baseado na trajetória de “William Randolph Hearst”, magnata da comunicação nos Estados Unidos.
Segundo o documentário, a Rede Globo emprega a mesma manipulação grosseira de notícias para influenciar a opinião pública como fazia Kane no filme de Welles.
O documentário acompanha o envolvimento e o apoio da emissora à ditadura militar, sua parceria ilegal com o grupo norte-americano “Time Warner” (naquela época, Time-Life). Além disso, expõe algumas práticas de manipulação da emissora de Marinho, incluindo o auxílio dado à tentativa de fraude nas eleições fluminenses de 1982 para impedir a vitória de “Leonel Brizola”.
Entre outras manipulações, cita a cobertura tendenciosa do movimento das “Diretas-Já”, em 1984, quando a emissora noticiou um importante comício como um evento de comemoração do aniversário da cidade de São Paulo. A edição, para o Jornal Nacional, do debate do segundo turno das eleições presidenciais de 1989, de modo a favorecer o candidato Fernando Collor de Mello frente a Luís Inácio Lula da Silva, também é retratada no documentário.
Sua primeira exibição pública no Brasil seria no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), em março de 1994. Um dia antes da estreia, a Polícia Militar recebeu uma ordem judicial para apreender cartazes e a cópia do filme, ameaçando, em caso de desobediência, multar a administração do MAM-RJ. O secretário de Cultura da época acabou sendo demitido três dias depois.
Durante os anos noventa, o filme foi mostrado ilegalmente em universidades e eventos de partidos políticos. Em 1995, a Globo entrou com um pedido na Justiça para tentar apreender as cópias disponíveis nos arquivos da Universidade de São Paulo (USP), mas o pedido foi negado. O filme teve acesso restrito a grupos universitários e só se tornou amplamente conhecido e divulgado a partir do ano 2000, graças à popularização da internet.
No Brasil sempre tivemos nossos “Chatô’s” e “Marinho’s”, que manipularam os fatos a seu bel prazer, criando uma fantasiosa “verdade relativa”, sempre com interesses escusos.
Numa verdadeira democracia, onde o Estado de Direito prevalece, este tipo de ação, parta de quem for, não pode ser mais admitida.
Como sempre digo, neste tabuleiro do jogo da política, o que menos tem é santo.
Fonte: http://www.ricardoorlandini.net


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