As histórias de Zuenir, e algo mais

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15 Janeiro 2010

Causos existem às pencas por aí. No jornalismo, então, profissão que depende diretamente da relação entre pessoas e que está muito próxima do poder, são milhares. O que não significa que não seja interessante conhecê-los, até porque com muita frequência os bons jornalistas, donos de bons causos, têm bons textos.

Zuenir Ventura conta os seus no livro “Minhas histórias dos outros”, publicado em 2009 pela editora Planeta, e não foge à regra do texto de qualidade, agradável de ler. Mas o que chama a atenção e me trouxe a esse post foi uma forma de lidar com os fatos que ele descreve na apresentação. O jornalista sabe que seria impossível recordar todas as histórias exatamente como aconteceram. Também não escreveu diários, ficando seus relatos restritos aos que ele publicou nas páginas dos jornais.

Então, como passá-los para o papel tanto tempo depois? Não, ele não inventou sua vida para ficar mais interessante e vender mais. Procurou, como explica no livro, documentos, relatos de terceiros, arquivos. Mas deixou a ressalva: “Nada disso, porém, é garantia de fidelidade absoluta. Afinal, os fatos à distância só existem como versões, o que não deixa de ser uma forma de ficção”.

Mesmo sem querer, o autor de “1968: o ano que não terminou” entra na discussão sobre o limite entre jornalismo e literatura, entre verdade e ficção. E define de forma bem saudável a relação do jornalista com os fatos. Ele não é dono dos fatos, mas é, sim, o responsável pela construção que elabora deles. Nada do que diz é verdade absoluta. Sua matéria, seu texto, são interpretações da realidade. Mas que não podem, nunca, fugir deliberadamente dela. Um jornalista não pode inventar, mas tampouco pode considerar-se o dono da verdade.

Provocar essa discussão só atribui mais um mérito ao livro de Zuenir Ventura, que já tem tantos outros. Vale como biografia, pelo texto de altíssima qualidade, pelos relatos de histórias jornalísticas, pelas histórias não-jornalísticas também. E vale, por fim, como curiosidade. Afinal, uma história boa e bem contada sempre vale a pena.

Pela sua proximidade com o poder, a história dos jornalistas de relevância é um pouquinho a história do Brasil, no período em que a figura em questão viveu e produziu. É por isso que seus causos, suas biografias pululam e vendem tanto, sejam escritas por eles próprios ou por seus pares. Interessam não só pela curiosidade, mas por sua importância histórica, como fonte de pesquisa.

Postado por Cris Rodrigues

Fonte: http://jornalismob.wordpress.com

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