TEATRO DO ABSURDO
STJ: luz cortada por fraude não terá religação imediata
O surrealismo no escuro
Gerivaldo Alves Neiva *
Esta história é baseada em fatos reais e tem como fundo a recente decisão do STJ que suspendeu os efeitos de liminar concedida nos autos de Ação civil pública ajuizada pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo na 2ª. Vara Cível da Comarca de São José do Rio Preto (SP) em desfavor da Companhia Paulista de Força e Luz, com pedido de antecipação de tutela.
A liminar tinha determinado à CPFL, além do religamento da energia suspensa, que o restabelecimento da luz na área deixasse de ser condicionado à situação anterior ao pagamento de valores arbitrados como indenização para energia. Também estabeleceu a suspensão de todos os efeitos jurídicos dos termos de confissão de dívida firmados entre os consumidores e a CPFL – no caso dos que tiveram, como fundamento, o reconhecimento de dívida decorrente de irregularidades na medição do consumo.
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PERSONAGENS:
Mulher
Homem
Funcionário da companhia de luz
Técnico da companhia de luz
ÉPOCA: presente – LOCAL: qualquer cidade deste país sob jurisdição do STJ
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ATO ÚNICO EM 4 CENAS
(Em uma casa simples, um casal toma café da manhã. Ao lado da mesa, com uma das mãos, a mulher balança um carrinho de bebê.)
CENA 1
Depois de um gole de café, o homem se dirige à mulher:
- Amor, não se esqueça de me entregar o recibo de luz, pois o vencimento é hoje e você sabe que não podemos ficar sem luz em casa.
A mulher se dirige a um móvel no mesmo cômodo da cozinha e abre uma gaveta. Na volta, trazendo uma conta de luz, comenta com o homem:
- Meu bem, você já reparou que tem alguns meses que nossa conta de luz está vindo sempre com o mesmo valor?
- Já, meu amor, mas deve ser porque estamos economizando bem.
- Sim, nós estamos economizando, mas acontece que mesmo no mês em que passamos 15 dias na casa de seus pais, a conta veio como o mesmo valor.
- Bom, se é assim, tem alguma coisa errada. Depois vejo isso. Agora estou com pressa…
O homem beija a mulher e se abaixa para beijar, bem devagar, o bebê no carrinho e sai para trabalhar. A mulher acomoda a criança no carrinho, coloca um avental e começa a retirar os pratos da mesa.
Minutos depois, batidas na porta e um preposto da companhia de eletricidade lhe entrega um aviso de cobrança. A mulher recebe o papel, começa a ler calmamente, mas aos poucos vai ficando apreensiva…
- Ei, o que é isso? A companhia está me cobrando 850 reais de conta em atraso? Como assim? Nossas contas estão todas pagas? O senhor está brincando?
- Minha senhora, consta aqui nesta planilha que o medidor foi adulterado e parou de contar há mais de 6 meses. Daí, a empresa elaborou uma conta considerando todos os equipamentos que a senhora tem em casa e encontrou a carga de energia que a unidade consome. Depois, fez uma nova conta e encontrou o valor da energia que a unidade consumiu e não pagou, ou seja, houve uma fraude no medidor e agora a senhora vai ter que pagar pelo que consumiu…
- Como assim? Interrompeu a mulher. O senhor está querendo dizer que nós mexemos no medidor para roubar energia? Que absurdo! Rapaz, este medidor só pode estar com defeito, pois as contas estão vindo no mesmo valor e só agora, depois de 6 meses, vocês aparecem com uma conta neste valor absurdo. Olhe aqui, rapaz, mesmo que eu quisesse, não teria como pagar isso sem tirar o leite da criança e o pão da nossa mesa!
- Minha senhora – tentou mais uma vez explicar o rapaz – a empresa fez uma perícia no seu medidor e constatou a fraude…
- Como assim? Quando foi feita esta tal de perícia? Quem foi o técnico? Por que não nos avisaram?
- Só posso lhe afirmar que a perícia foi realizada por técnicos da empresa.
O rapaz sai apressado e a mulher permanece atônita com o papel pendendo em uma das mãos.
CENA 2
O homem abre a porta da casa e está eufórico. Tem um papel na mão e começa a gritar:
- Meu bem, meu bem…
- Já ouvi. O que foi? Responde a mulher com impaciência.
- Olhe, – mostrando o papel – o Juiz concedeu a liminar e agora não vão mais cortar nossa energia e também não vamos mais pagar aquele valor cobrado pela companhia de energia elétrica. O juiz entendeu que a companhia não pode cobrar por um suposto – com voz mais alta – consumo de energia resultante de uma possível fraude – com voz mais alta - e que a perícia em que se baseou para chegar ao valor de 850 reais não passou pelo crivo do contraditório e do devido processo legal, pois não participamos de nada. Disse também o juiz que o corte de energia elétrica, para quem não tem outra alternativa para viver em uma cidade grande, fere a dignidade da pessoa humana… Nem sei bem o que significa tudo isso, mas deve ser coisa boa para nós.
Falando sem parar e cada vez mais eufórico, o homem continua:
- Meu bem, o advogado da associação me explicou que o juiz disse na sua decisão que nós não podemos ser punidos e nem obrigados a pagar por uma coisa que não devemos, pois se havia um defeito no medidor, a companhia deveria ter constatado isso e consertado logo, mas deixou ficar assim por 6 meses e só agora vem nos cobrar o que não podemos pagar. É claro que ela sabia que estava acontecendo isso, pois se é ela mesma que faz os recibos todos os meses.
- Que bom, meu amor! Ainda bem que o juiz entendeu a situação e ficou do nosso lado.
- Não, meu bem, ele ficou do lado da Justiça!
- Seja lá o que for, o importante é que acabou nossa preocupação.
O homem abraça carinhosamente a mulher e faz um carinho no bebê em seus braços.
CENA 3
Mulher olhando pela janela da casa, gesticulando e demonstrando desespero.
- Moço, o que significa isso? O que você pretende fazer com esta escada neste poste?
Ouve-se uma voz ao longe, como se gritando de um local distante.
- Sinto muito, senhora, tenho uma ordem para cortar sua luz…
- Como assim? Nós temos uma liminar do juiz garantindo que não haveria o corte!
- Não sei lhe explicar direito, minha senhora, mas parece que outro juiz concedeu uma nova liminar derrubando a liminar do juiz que concedeu a primeira liminar… Essa confusão da justiça!
Em prantos, a mulher reclama:
- Moço, eu não roubei sua luz. Aliás, moço, eu nunca roubei nada nesta vida. Meu marido trabalha na construção, recebe um salário mínimo por mês e foi com esse dinheiro e ajuda dos amigos que construímos essa casa. Nós somos pobres, mas somos honestos. A companhia de luz está dizendo que nós roubamos sua luz, mas isto não é verdade. Moço, eu não posso viver sem luz. Tenho pouca coisa elétrica em casa, mas tenho uma criança que sofre de problema respiratório, depende de nebulizador e não existe posto de saúde aqui no bairro. Moço, vocês vão matar meu filho…
- Minha senhora, eu sinto muito e estou apenas cumprindo ordem…
- Como assim “cumprindo ordem”? O juiz já reconheceu nosso direito de pagar apenas o que consumimos e que temos o direito à energia elétrica em nossa casa até que o problema seja resolvido. Quem é esse novo juiz que agora diz que nós vamos pagar pelo que não consumimos; que somos culpados pelo defeito no medidor e que vamos ficar sem energia em nossa casa. Será que ele não sabe que na cidade grande não se vive sem energia? Será que ele não sabe que temos criança em casa?
- Minha senhora, eu sinto muito e estou apenas cumprindo ordem…
- Ora, que justiça é esta que acolhe apenas a versão de uma grande companhia de eletricidade e aceita como verdade que nós adulteramos o medidor de energia? Que justiça é esta que se baseia em uma perícia feita pela própria companhia e sem nossa participação? Que justiça é esta que acolhe o argumento que devemos 850 reais de energia se não consta este valor no medidor e se teve mês que passamos mais de 15 dias fora de casa? Que justiça é esta que nos obriga a pagar o que não podemos a uma companhia que tem lucro de milhões todos os anos?
- Minha senhora, eu sinto muito e estou apenas cumprindo a ordem da justiça…
De forma mais calma, como um lamento, a mulher prossegue:
- Meu filho, pare de dizer que sente muito e desça desse poste em nome da Justiça Verdadeira e não dessa justiça que você diz que cumpre ordem! Não seja cúmplice de um crime. Não permita que sua mão cometa um absurdo desses. Não carregue em seu coração o arrependimento de ter contribuído com os ricos e poderosos para prejudicar pobres inocentes. Moço, o senhor tem filhos? Desejo que todos tenham saúde e que o senhor não precise sair com um deles, na noite fria, em busca de um posto de saúde para fazer a nebulização. Não, moço, não faça isso pelo bem que o senhor tem a seus filhos… Não destrua a dignidade de uma família honesta e trabalhadora. Uma família igual à sua, mas certamente muito diferente da família que lhe mandou fazer este serviço!
- Sinto muito.
A luz se apaga no ambiente…
CENA 4
Em uma sala escura, sentados imóveis, o homem e a mulher olham em silêncio para o infinito. Com um das mãos, a mulher balança um carrinho de bebê…
Fundo musical:
Amanhã!
Será um lindo dia
Da mais louca alegria
Que se possa imaginar
Amanhã!
Redobrada a força
Prá cima que não cessa
Há de vingar
Amanhã!
Mais nenhum mistério
Acima do ilusório
O astro rei vai brilhar
Amanhã!
A luminosidade
Alheia a qualquer vontade
Há de imperar!
Há de imperar!
Amanhã!
Está toda a esperança
Por menor que pareça
Existe e é prá vicejar
Amanhã!
Apesar de hoje
Será a estrada que surge
Prá se trilhar
Amanhã!
Mesmo que uns não queiram
Será de outros que esperam
Ver o dia raiar
Amanhã!
Ódios aplacados
Temores abrandados
Será pleno!
Será pleno!
(Guilherme Arantes)
Fecham-se as cortinas bem lentamente…
Conceição do Coité, 13 de outubro de 2009
* Juiz de Direito em Conceição do Coité – Ba.
Fonte: http://www.gerivaldoneiva.blogspot.com/
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