12 fevereiro 2010
O artigo de hoje é assinado por Clarice Speranza, em uma colaboração mais do que especial para o Jornalismo B. Ele vem como um brinde de Carnaval, já que não teremos postagens na próxima semana. É uma espécie de pequenas férias, já que o Brasil para durante esses dias mesmo. Até o dia 22 e um bom Carnaval.
Um dos sites de jornalismo participativo mais badalados e citados como exemplo de sucesso no mundo é o Rue 89, criado na França em 2007 com o objetivo de ser um produto comum de jornalistas, internautas e especialistas. Hoje, o Rue 89 está na boca até do mundo corporativo tradicional como um exemplo de interação bem sucedida com o público. Mas será que é mesmo?
O Rue 89 surgiu de um grupo de jornalistas egressos do periódico parisiense Liberátion, de centro esquerda (para os padrões franceses; aqui seria outra coisa…), descontentes com os rumos do jornal durante o segundo turno das últimas eleições majoritárias, que opôs Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal. A idéia era não só se contrapor ao apoio velado a Sarkozy na grande imprensa, mas também criar um portal feito a partir das contribuições conjuntas e igualitárias de jornalistas e internautas. Um jornalismo, enfim, que conseguisse incorporar as inovações desenvolvidas pelo criativo mundo dos blogueiros e aficcionados da net.
É neste sentido que o Rue 89 é citado hoje como grande exemplo. Lá o internauta pode propor matérias, enviar artigos, fotos e vídeos, que (importante!) são avaliados por jornalistas e, se for o caso, publicados. O portal já lançou alguns subprodutos interessantes, como um site participativo de Economia, o Eco 89 e outro em inglês, o Street 89, tem diversos blogs associados, vende camisetas, canecas e bolsas com sua grife, e, a exemplo da mídia tradicional, recebe publicidade e financiamento estatal.
Mas o interessante modelo do Rue 89 já recebeu críticas contundentes de um de seus próprios criadores, Michel Lévy-Provençal. Ele saiu fora da experiência em 2008 dizendo que o slogan “L’Info à trois voix” (informação em três vozes – jornalistas, especialistas, internautas) havia se tornado apenas um slogan vazio. Os jornalistas, reclamou, haviam relegado os não-jornalistas a um papel coadjuvante, acessório. A idéia inicial, de colocar blogueiros e internautas no coração do projeto, cabendo aos jornalistas somente o papel de animar os debates, verificar as informações e privilegiar os testemunhos, deu lugar à velha centralidade da redação como produtora principal dos materiais editados.
Esta crítica do Lévy-Provençal me fez pensar que, em se tratando de jornalistas, talvez isto seja o mais desafiador das transformações atuais no setor. Ou seja: abrir mão, ao menos parcialmente, de nossa autoridade sobre as informações que noticiamos, sobre o relato (quem tem dúvidas sobre a força dessa autoridade, por favor leia o livro “O jornalista e o assassino”, de Janet Malcolm). O ponto crucial é que há aí uma importante mudança na identidade do profissional jornalista.
Apesar de todas as revoluções que o jornalismo passou nos últimos 200 anos, ainda sobrevive, e forte, a idéia do jornalista como repórter; definido como aquele cara intrépido, corajoso e instintivo que sai às ruas em busca de informações, da vida que nelas habita. A reportagem é o “puro-sangue” do jornalismo, já ouvi muitas vezes, e estranhamente de profissionais com posições e posturas políticas diametralmente opostas, sem falar no discurso patronal, que também gosta de ratificar esta visão. Mesmo sendo editor ou assessor de imprensa, jornalista de verdade é quem se diz com “alma” de repórter.
Buenas, esta coisa cada vez mais emergente que se chama jornalismo participativo transforma um pouco esta nossa auto-imagem heróica. Tanto no projeto original do Rue 89, como em outras iniciativas interessantes, como o NowPublic ou o Ground Report, boa parte da voz que representa as ruas não vem dos jornalistas, mas sim dos internautas ou blogueiros ou mesmo das próprias ruas.
Mas o melhor exemplo de jornalismo participativo que conheço é daqui de Porto Alegre, e não tem nada a ver com a Internet. Se fosse nos Estados Unidos ou na Europa, teria fama mundial. O
Jornal Boca de Rua segue um esquema interessantíssimo, no qual os jornalistas não são bravos-repórteres-que-tentam-fazer-justiça-social-com-suas-combativas-matérias, mas justamente mediadores, capazes de divulgar, de tornar presente e inteligível, de fazer aparecer (e portanto, de criar socialmente, diria talvez Bourdieu) a fala dos moradores de rua. São esses últimos que definem pautas, que fazem as fotos, que escrevem, que vendem os jornais. Aos jornalistas cabe o trabalho (árduo, anônimo, heróico?) de formatar o discurso dos marginalizados, transformando-o num produto e, portanto, desmarginalizando-os. Tornando-os, assim, também “jornalistas”.
O complicado e fascinante de tudo isto é que as coisas novas que estão surgindo vão muito além dos “você repórter” da vida. O conceito e a prática do jornalismo participativo mexe com o jeito de se pensar jornalismo e mexe também com o que imaginamos que somos. E o que somos, então?
Clarice Speranza é jornalista, com mestrado na História. Foi por influência direta dela, como professora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, que o Jornalismo B surgiu.
Fonte: http://jornalismob.wordpress.com/
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