por Valacir Marques Gonçalves
Aos que não apreciam lembrar antigas histórias, dou um conselho: parem por aqui. Vou falar de um livro que li há muito. Seu título: “Barra Pesada”. Por acaso o reencontrei, empoeirado na prateleira de um “sebo”. Ele fala, principalmente, de polícia. Alguns vão relembrar, outros conhecerão uma polícia diferente, mostrada numa linguagem peculiar, com termos que revelam histórias de tiras e bandidos. Seu autor é Octávio Ribeiro, vulgo “Pena Branca”. Jornalista de profissão, dizia ter como psicose o perigo… Ele revelou sua “vida pregressa” num livro cativante, recheado de “mumunhas” espalhadas em “rounds” – nome que deu aos capítulos da sua obra. Com um estilo marcante, que inclui gírias e expressões da malandragem da época, descreveu, depois de 15 anos trilhando caminhos “traiçoeiros e espinhosos”, um tempo diferente. Através do “retângulo de capa dura”, deu sua versão, onde ponderou que “não curtiu os condimentos mágicos da literatura”, apenas “colou as consoantes nas vogais, tentando separar o bem do mal, como as grades separam o bandido dum policial…”.
As histórias começam na década de sessenta. Diferente de hoje, naquela época os policiais conhecidos não eram delegados… No Rio de Janeiro, destacavam-se os detetives Perpétuo e Le Cocq – aquele mesmo que acabou dando nome à famosa escuderia. “Pena Branca” revelou que “os canas transavam estilos diferentes”. Conta que “Perpétuo tinha cara de índio e um papo longo nos lábios”. Que “ele criou a maior rede de bandidos delatores que já houve no latifúndio do Cristo Redentor… Prendia sem dar tiros. Le Cocq era o inverso, defendia uma filosofia: ‘Quem tem pernas curtas vai à frente’. Tradução: bandido anão não tinha vez…”. Qual era a do Perpétuo? “Pena Branca” responde: “Um tira esperto: veneno na língua, sorriso aberto – um dos primeiros policiais a reconhecer o poder da imprensa. Ele papeava com repórter policial, fornecia mil informações, muitas frias, algumas quentes. Ganhou fama na lama, discutiu até com gago… Le Cocq não, evitava os jornalistas. Ele não queria acordo, o marginal teimoso morria. Quando o grupo dele surgia era aquela orgia, fugia até quem não devia…”.
No quarto “round” o “Pena” abre o jogo e “entrega” como tudo começou: “Em 1959 eu monologava com Pitágoras, era um ‘Pai Tomás’ numa cabana bancária. Na época, nunca havia curtido um cadáver gargalhando no IML. Um ano após, fui escalado para gravar as risadas da presuntada horizontal e as transas dos pêsames perfumados com formol. Depois cursei o vestibular dos mistérios, entrevistei maquiavélicos, oculei germes histéricos disputando os camarotes dos cemitérios, enfrentei os eruditos dos crimes, mergulhei nas calamidades públicas e prefaciei outras comédias da vida”. Perguntado como se investiga a morte de um cara odiado por todo mundo, ele explicou: “Primeiro, cutuca-se o singular, depois, se varre o plural. É uma técnica de triagem”. E o mais chato: Latrocínio ou homicídio? “Latrocínio, malandro. Homicídio você levanta virtudes e pecados depois ataca o veneno. Sempre existe um bom suspeito com vontade de matar. Latrocínio é diferente, mais invocado e sanguinário, né? O matador é mais perigoso”. Perguntaram ao “Pena Branca”, também, se o Mariel Mariscott era bom policial. Disse ele: “Era da safra nova da polícia carioca. Pena que tenha feito transplante de cuca, sem anestesia e com dupla rejeição. Quebrou bússola, casco furou, não viu gaivota ou terra à vista…”.
Sobre o jogo do bicho, ele deu uma aula. Mostrou as trampas, os sortudos e os azarados. Provocado, dissertou: “Quando alguém quer saber por que no bicho pinta a imagem da honestidade nesse mundo tão aventureiro, eu cutuco: Não jogue no cachorro, vaca, cobra, touro e carneiro. Aceite esse conselho, leitor. Vire as páginas e retranque o seu dinheiro”. – “Qual o seu signo?” – perguntaram para ele. – “Capricórnio, bode sofredor.” – esclareceu. – “Você joga no bicho?”. Respondeu dizendo que “o jogo pode ser honesto, mas serve pra depenar patos e gansos. Que nunca viu banqueiro de bicho pobre”. Sobre os bichos, foi didático: “Número 1 – Avestruz: jogo bom pro banqueiro, dá muito, não é preferido pelos clientes. Número 2 – Águia: é um bicho que a freguesia tem uma simpatia. É ruim pra banca. Número 3 – Burro, compadre. Quase ninguém joga. Número 4 – Borboleta: mais do que menos. Muita gente joga na voadora colorida, acerta vez ou outra. Número 5 – Cachorro, malandro. Grande favorito do público. Aposta pesada diariamente. Custa a dar, é transa ruim pros banqueiros, difícil de acertar na cabeça”, ensinou. Os números dos bichos vão até o 25. Por falta de espaço, sou obrigado a ficar por aqui…
O livro tem quase trezentas páginas; são imperdíveis, principalmente, as entrevistas nas quais a polícia da época é dissecada. Mas não poderia encerrar sem comentar as visitas do “Pena Branca” ao morro da Mangueira. Selecionei algumas passagens. Diz o “Pena” que esteve lá acompanhado, mas que também “enfrentou sozinho a gravidade do morro”. Deixou claro que “só conseguiu dialetar com os ‘astuciosos aventureiros’ da montanha ao prometer-lhes que omitiria suas verdadeiras identidades”. Tirou deles que “no asfalto, em cada ponta de esquina tem uma placa com um nome. No morro, em cada virada de beco a morte tá com fome”. Os “astuciosos aventureiros” informaram também que “o ‘Buraco Quente’ sempre foi o foco da pesada – é o encontro da patota independente que não gosta do batente”. Perguntou finalmente para eles: – “Agora vem cá, malandro! Como é que os bandidos e os trabalhadores arranjam dinheiro para o carnaval?” – “Quem vive de trabalho honesto apanha empréstimo. As lavadeiras se viram nas tinas. Já a pesada segura o ‘querenque’ pra fazer um ganho…”.
É isso aí, quem quiser saber mais procure o “retângulo de capa dura” nos “sebos”. Quem não achar, mande o nome e “direção” que entra na fila do empréstimo…
e-mail vala1@uol.com.br
blog www.valacir.com
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