Bondes, os velhos bondes.

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Filho de imigrante e operário da construção civil fui criado em Petrópolis que já foi um bairro de classe alta. Quando meus pais compraram um terreno lá e construíram nossa casa, era praticamente um vazio. Eu e meu mano, o Henrique, estudávamos no Colégio Rio Branco. Recebíamos o dinheiro contado para as passagens de ida e volta. Pra fazer uma economia e assim termos uns trocados nos bolsos, nós e outros meninos, ao invés de tomarmos o bonde no retorno, o fazíamos a pé. E evitávamos a Protásio Alves então “muito movimentada” em termos de trânsito de veículos. Por isto caminhávamos pela Rua Felipe de Oliveira, paralela a Protásio Alves. Quando chegávamos à esquina da Rua Borges do Canto onde havia uma praça com uma enorme caixa d’água, ali encontrávamos um velho senhor, franzino, com rosto fino e muito tranqüilo. Com ele conversávamos por algum tempo. Dele recebíamos sempre conselhos no sentido de nos empenharmos nos estudos. E aqui digo a vocês que aquele senhor simpático e educado era Érico Veríssimo, com quem conversávamos por um bom tempo. Bons tempos aqueles e que infelizmente não mais voltam por que a vida é assim.

Vereza e Jô: vídeo de 2006 mostra como eles babam!

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publicada quinta, 04/03/2010 às 22:32 e atualizado quinta, 04/03/2010 às 22:40 | Comentários 2 Comentários

Clima de comício no estúdio da TV Globo, em São Paulo. O ator Carlos Vereza é o entrevistado de Jô Soares. Estamos em maio de 2006: Lula prepara-se para disputar a reeleição contra Alckmin.

Carlos Vereza toma a ofensiva, e de cara dá os parabéns a Jô pela “tribuna livre” representada pelas “meninas do Jô” (aquele “debate” em que as “analistas” convidadas concordam em tudo, e concordam principalmente com a linha oficial baixada pelo comitê central da Globo).

O ator explica que as “meninas” faziam uma “crítica pertinente” e sem “sectarismo” ao Mensalão, e ao “projeto de autoritarismo que tentou, e tenta, se instaurar no país”.

Palmas. Jô agradece e fala em “poder tentacular” no país. Quem seria o polvo? Advinhem?

Jô Soares pergunta se Vereza apoiou Regina Duarte quando, em 2002, ela dissera que tinha “medo” da vitória de Lula. “O medo dela era muito menor em relação ao que aconteceu”, diz o gordo. Vereza completa: “muito menor, eu apoiei a Regina.” Vereza explica que em 2002 apoiou Serra, que era a “verdadeira esquerda”.

O vídeo segue, com críticas a Lula. Ritmo frenético de campanha.

No site do Programa do Jô consta uma entrevista de Vereza em maio de 2006. Mas não é possível saber se aentrevista foi ao ar na íntegra.

O vídeo mostra qual era o clima na Globo em 2006. Eu estava lá, trabalhava como repórter – talvez alguns se lembrem…

Quando amigos me perguntam se eu não exagerei quando escrevi aquela carta (aos meus colegas da Globo, na época) , a contar porque entrara em choque com a direção da emissora durante a cobertura das eleições, eu às vezes tenho que relembrar tudo que se via e se vivia por lá – http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=13171.

Quatro anos depois, as manchetes de “O Globo” estão aí de novo. E os caras estão babando ainda mais… Babam na gravata, como fizeram no recente simpósio do Instituto Millenium, financiado por Globo/Abril -http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/arnaldo-jabor-e-a-esquerda-que-nao-deveria-mais-existir.

Acho que o Vereza precisa se inscrever no Instituto Millenium. Faltou o Vereza no convescote, organizado pelos patrões da Globo/Abril para provar que a Democracia corre riscos porque eles (da Globo/Abril) já não estão no poder.

Assistam ao vídeo do Vereza com Jô, de 2006, e relembrem – http://www.youtube.com/watch?v=0ofad8OF0bU.

Fonte:  http://rodrigovianna.com.br

DIRETO DO BRASIL LOEFFLER ACOMPANHA O BLOG

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Pois é Ruy, bons tempos aqueles. Meu pai era conselheiro do G.E. Renner. O velho estádio Tiradentes na esquina da Sertório com a Farrapos virou uma garagem de ônibus e o restante foi ocupado por edifícios. O estádio do Cruzeiro, a Montanha hoje é um cemitério. O estádio do Força e Luz nem sei o que foi feito com ele. Tínhamos em Pelotas, o Pelotas, o Brasil e o Farroupilha, este dos milicos de verdade, ou seja, verde oliva. Rio Grande tinha o Rio Grande, o Rio-grandense e o São Paulo. Passo Fundo tinha o Passo Fundo e o 14 de Julho. Erexim tinha o Atlântico e outro cujo nome não lembro. Livramento tinha o 14 de Julho e o Grêmio Santanense. Uruguaiana tinha o Ferro Carril e parece-me que outro. Santa Maria tinha o Rio-grandense e o Internacional que ainda existe. Bons tempos aqueles. Em 54, o Renner foi campeão gaúcho invicto, Sua linha tinha o Pedrinho que penso já falecido e vendedor de tintas, o Breno Melo, que virou ator de cinema e depois afundou com jogatina, o Juarez Lemos de Taquara dono de um bom número de imóveis e um belo centro avante. Na meia esquerda havia um cabeçudo com um pesinho 35 ou 36, canhoto e bom de bola que também já está no céu. Era o Enio Andrade. E na ponta esquerda tinha o Joeci que depois foi meu treinador na várzea em Bom Jesus, minha primeira Delegacia. Lembro do Valdir Morais, goleiro espetacular, do Bonzo na lateral direita, do Gago no meio campo, do Orlando Romagna, cujo irmão pecuarista fui conhecer muitos anos depois em Júlio de Castilhos. E do Enio Rodrigues que depois brilhou na zaga do Grêmio.Fico por aqui, pois a memória já não é a mesma de uns anos passados.

Fonte:  http://blog.gessinger.com.br/

QUEIMAR AS PONTES II

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10 de Novembro de 2009 às 18:26 Ruy Gessinger

Loucura o número de mails que recebí, todos de mães e avós, me acusando – todas, todas – de que minha postagem tinha sido dirigida a cada uma especificamente.

Assim como: não devias ter te aproveitado de teres conhecimento de minha vida, para a escancarar assim no teu blog;
eu sei que é de mim que estavas falando; na verdade tu és carente e tens inveja do carinho que dou aos meus filhos;
eles não vão passar o que passei: eles vão ter tudo o que eu não tive;
tens que te tratar ou voltar ao útero de tua mãe.

Salientou-se um mail que recebo de leitora de Cachoeira do Sul, que usa o pseudônimo de Blaue Augen e que professa: te esqueces de que nós, mulheres , fomos feitas para isso: para cuidar de filhos e netos .

Outra, de Lavras do Sul me disse que o filho dela foi injustiçado pelo juiz, só porque matou em legítima defesa famélica e ela se ofereceu para cumprir a pena no lugar do pobrezinho. Lamenta que o juiz não aceitou.

A última, de Santa Maria, me disse que o filho incorporou ao Exército e que vai entrar na Justiça Federal com um pedido liminar para que possa acompanhar o indefeso rebento nas manobras e marchas, preparando comida para ele e vendo se está bem coberto à noite. Disse que o coronel comandante se mostrou insensível.

Bem, considerando que minha mãe me tomava todos os pilas que eu ganhava quando morava com ela e o pai ( no tempo em que dos 14 aos 16 anos trabalhei em Assmann SA), cheguei a cogitar de contratar um advogado para processar dona Ludmila, só para ela ir na frente do Promotor e ser obrigada a pagar cestas básicas para se livrar da masmorra. Como me lembrei, num intervalo de lucidez, que tudo está prescrito e mais: que ela poderia entrar com uma reconvenção contra mim e talvez me tomasse uma grana preta, querendo lucros sobre tudo o que ganhei graças à educação que ela me deu, recuei.

“Deixêmo”, como se diz em Unistalda.

Mas , todas as que me mandaram os mails furiosas admitiram que eu não era de todo mau e que no meu peito batia um coração. Querem que eu relate como foi o final, como foi depois que eu fiquei chorando lá em Três de Maio.

Pois é: cheguei no Hotel em Três de Maio e lá estava hospedada uma turma de mineiros e mineirinhas, lá de Juiz de Fora, do tal Projeto Rondon. (Pô Tusi, se não sabes o que Projeto Rondon, vai no Google). As gurias eram bem evoluídas para seu tempo. Uma viu que eu estava triste. Correu até um mercadinho e voltou com uma garrafa de Drink Dreher e me arrastou para o quarto dela, expulsando as outras três colegas .

Depois não me lembro mais de nada.

Fonte: http://blog.gessinger.com.br

Diz o blogueiro – pois no final da tarde, um pouco antes de me deslocar a Capão Novo, pois tivemos em nossa Loja a eleição para a nova administração, entrei no blog do Ruy e vi que ele havia inserido a minha postagem de seu texto onde eu havia feito comentário. E aí para minha surpresa vi que tinha escrito “texto” ao invés de texto. Neste momento disse a mim mesmo vai a Buda que bariu, seu burro, ate parece formado em jornalismo e trabalhando na repetidora. Naquele momento assistia a um noticiário num canal de TV de Porto Alegre e ouvi o apresentador dizer: o ônibus perdeu um pneu. E disse repetidas vezes, só que havia perdido uma roda inteira. Aí disse ele: e ninguém se feriu, o que é obvio, pois em tese não havia doentes mentais dentre os passageiros. Imagino as reações dos leitores do Ruy, todos “modernos” e, portanto protetores de seus filhinhos. Hoje é assim, o pai burguês quando o filho lamenta a perda do carro num acidente, o paizão da um cheque ao filhinho e manda buscar outro carro na agência. Quando este pai idiota bater a “cachuleta” como diz o meu amigo Rubenir Fernandes que trabalha numa emissora chapa branca aqui do litoral, este filho querido, em dois anos no máximo, queima o que o coroa bonzão deixou e aí afunda definitivamente. Essa burguesia continua burra, embora em muitos casos com dinheiro demais. Grana quando falta é de doer, mas quando sobra também trás sérios problemas. Penso que melhor sempre estar preocupado em como pagar as contas, seja ainda o melhor.

QUEIMAR AS PONTES

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Gente de todas as idades lê meu blog. Tem gurizada como o Luis Tusi, o Lemes, o Jerônimo Görgen, o dep Lara, a Juliana Leal, o Nemitz e tantos outros.

A maioria dos jovens de hoje , não os acima citados,nunca queimou pontes e talvez nunca o faça.

Começa por não nascerem ” em domicílio” como eu. A maioria nasceu no hospital, a maioria de cesariana, muitos não mamaram no peito. Já é uma desvantagem.
A maioria foi, no primeiro dia de aula, acompanhado da mamã, que até, se brincar, terá ficado na aula até pararem de chorar.
Quase todos mandaram a mãe ou a vovó para a fila quando aquilo que lhes interessava demandava de espera, como a matrícula.
É provável que os pais os levaram de carro até o local do vestibular e ficaram conferindo os gabaritos . Novamente as mães devem ter ido junto fazer a matrícula ( e é claro colocado aquelas faixas ” Valeu.. fulano” ( que criatividade, hein?).

Pais e mães devem ter ajudado ou procurado a achar uma CCzinha básica.
E, finalmente, como hoje em quase todo o mundo, ainda vivem com os pais, mesmo tendo 40 anos.

Havia um tempo em que você tinha de queimar as pontes. Não tinha mais volta.
No interior não havia faculdades, mesmo em cidades prósperas como S. Cruz.
A solução era, aos 17 anos ou antes, arrumar os trapinhos dentro de uma mala e sair para P. Alegre, arrumar um emprego de meio turno, morar numa pensão com mais seis caras nos beliches e um banheiro só em toda a casa, geralmente abrigando 40 barbados. E uma geladeira só, onde seu pão com mordadela dormia e não amanhecia ( legítima defesa da fome). Você tinha que lavar pesssoalmente suas cuecas e camisas e ir alternando suas duas únicas calças e seus dois únicos sapatos Vulcabrás. Tinha que comer no RU ( Restaurante Universitário) meio que desprezando algum bichinho que aparecesse no feijão. Ir para casa visitar os pais? era fácil. Era só ir na rua Hoffmann ali na Voluntários e pegar carona em um caminhão. Transporte escolar? nada disso. Era a pezito no más.

Chopp? fácil, a gente se metia no Alaska, que era ali na Sarmento, perto da Arquitetura e ficava cuidando quando algum cara fosse ao banheiro, numa mesa restavam copos pela metade. Era disfarçar e tomar o resto.
Tá, mas já é muito devaneio e relembrança.

Na formatura muitos pais não vinham porque tinham que cuidar da lavoura de fumo ou de seus bolichos de colônia. Não tinha nada de especial, salvo o detalhe de você ter o diploma de uma faculdade RENOMADA e realmente ter construído uma sólida cultura, que lhe abriria todas as portas.

Concurso. Aprovação. Tomar posse.
Podia escolher? Sim, mas não tinha filé.
Minha primeira comarca foi Horizontina, isso nos anos 70.
Viagem de carro. Atulhado de livros e malas. Era tudo o que eu tinha.

O asfalto terminava em Carazinho. Dali em diante era só barro vermelho. Apesar de ter saído cedo de P. Alegre, tive de pernoitar num hotelzinho na frente da Rodoviária de Ijui, ouvindo roncos de ônibus o tempo inteiro.
Cheguei meio dia de um domingo em Horizontina, em janeiro. Parecia que uma bomba de neutrons tinha caído ali. Ninguém nas ruas ( nas poucas que havia). Cheguei num Posto de Gasolina. Um cara , sentado numa cadeira de palha, palitava os dentes.
- senhor: qual o mehor hotel daqui?
O cidadão deu uma risadinha:
- só tem um e está fechado, os donos estão de férias numa prainha do rio Uruguai.
No outro dia eu tinha que assumir. Ninguém me esperava, o telefone era a manivela.
E agora?
E agora eu tinha que dar um jeito, tinha queimado as pontes que ficaram para trás.
Continuo outro dia.
( mas que naquele dia chorei, bem pouquinho, mas chorei, porque tive que voltar para Três de Maio, 30 kms de barro e pernoitar lá…)

Fonte: http://blog.gessinger.com.br/

Diz o blogueiro – prezados leitores este texto é magnífico pela sua simplicidade. Esta é a razão que me faz postar com frequência os textos do Ruy. Ele é um cara simples, aberto e sem frescuras. Abre a alma, coisa pouco comum, especialmente por parte daqueles que se dão bem na vida como é o caso dele. Só espero que dê logo continuidade ao mesmo.

FINADOS – VELÓRIOS

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Na minha infância, nada mais espetaculoso do que exéquias. A começar, na majestosa Catedral de minha terra natal, aquele cheiro de incenso, com turíbulo e tudo, as luzes roxas e azúis filtradas pelos vitrais, o sacerdote ou o Bispo D. Alberto com paramentos negros e o Coral entoando ” Dies irae , dies illae” ( pronuncia-se ire, ille). E o famoso morto ali no meio desse cerimonial que culminava, no cemitério ,com aquele barulho da terra caindo sobre o caixão.

Já ví pais enterrando filhos, já ví mortes de famílias inteiras, pai, mãe e filhos nesses recorrentes acidentes de trânsito. Até hoje me lembro dos dias e das fotos quando mataram Guevara e quando morreu Allende. Já perdi cedo meu pai.Antes perdera meus avós num desastre.

Perdi um amigo que, ao descobrir seu câncer, começou a me enviar cartas me contando como ia indo seu fim.
Outro, também com câncer, aguardava a morte em sua própria casa. Estava magérrimo, olhos cavados, se cansava para falar, arfava. E me dizia que só não se matava porque tinha medo.

E não me sai do pensamento aquela mulher de S. Leopoldo que perdeu seu gurizinho e que, todas as manhãs, ia ao cemitério colocar autinhos e brinquedos sobre o túmulo.

E, para finalizar, o velório mais esdrúxulo. Numa cidade do interior um rapaz ainda jovem faleceu em P. Alegre. Trouxeram-no para ser velado em casa. Familiares e amigos em redor do caixão, quietos, assistindo a novela da Globo numa TV quase na cabeceira do caixão.

Lembram-se daqueles plim plim que a Globo tocava para anunciar o intervalo?

Pois tocou o plim plim , iniciaram os comerciais e se iniciaram as lamentações e os choros.
Plim plim, tocou de novo, reiniciou o capítulo e se refez o silêncio.

Fonte: http://blog.gessinger.com.br/

A paz sonhada

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25/10/09

Wanderley Soares


Há quem canta sem saber cantar. Ele dançava sem saber dançar.

Era um homem pequeno. Um baixinho. É bem verdade que as luzes dos bares noturnos tansformam as pessoas. As feias podem se tornar belas, e as belas mais belas ainda. Mas aquela luminosidade morrediça não modificava a realidade do homenzinho. Seria, creio, o mesmo, ainda que à luz do sol. Não era velho. Apenas madurão. Mas era feio. Não desses feios insalubres, vampirescos, amarrotados pelo tempo. Era um feio alegre, cheio de dentes, cabeleira vasta, que se desguedelhou ao longo da noite. Não o conhecia. Deveria habitar em noites distantes.

Era outono, mas estava quente. Além disso, o arcondicionado da casa nunca funcionou. Os ventiladores apenas renovavam o calor. Nada importante. Os notívagos chegam perfumados, refrescados pelo banho tomado, e depois se acostumam com o cheiro da nicotina, do álcool e até mesmo com os pingos do suor alheio. Enriquecendo a festa, o homenzinho estava dentro de um folgado traje azul-marinho, gravata com listras largas e oblíquas. No rosto, imensos óculos quadrados, que a toda hora escorriam e eram aparados pelas asas do nariz, e recompostos com o dedo indicador.

Ele chegou sozinho, mas não foi longa a sua solidão. Buscou uma mesa próxima da pista. Tinha ares de quem se sentia em casa. Pediu um chope, que tomou sem pressa. Logo encontrou um par. Simpática, baixinha, gordota. Gostaram-se, pois não se largaram mais. Dançaram toda a noite. Paravam só quando a banda parava. Ele afrouxou a gravata, e a fralda da camisa branca chegou a aparecer-lhe sob o casaco curto. Ela não se desalinhou. Sorria todo o tempo. Ele ria, parava, aplaudia a banda e atirava beijos para o mestre que acariciava os bordões de um violão de sete-cordas.

Há quem canta sem saber cantar. Ele dançava sem saber dançar. Ela a tudo acompanhava. Muitas vezes a banda variou de ritmos, mas nenhum deles era o dos passos dos dançarinos. A música, até atingi-los, passava por um processamento mágico e chegava-lhes como eles melhor entendiam. Eram muitos os pares, mas eles faziam a festa como se só eles existissem. Ainda hoje, foge-me a certeza se os outros pares notaram, como eu, a aparição dos baixinhos. Inclino-me a crer que para aqueles que não estavam envolvidos na mesma felicidade, os baixinhos eram invisíveis.

Fonte: www.jaymecopstein.com.br

Obama ordena investigação de assassinato de talibãs no Afeganistão em 2001

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Altos funcionários do governo Bush frearam investigações, aponta jornal

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ordenou investigar as supostas tentativas da administração americana anterior de ocultar o assassinato, em 2001, de centenas de prisioneiros talibãs por um senhor da guerra afegão.

— Pedi à minha equipe de segurança nacional que recupere todos os fatos — disse Obama, em entrevista à rede de televisão americana CNN.

O jornal The New York Times revelou na sexta-feira passada que altos funcionários do governo de George W. Bush frearam os esforços do FBI, do Departamento de Estado e do Pentágono para investigar os fatos.

Segundo fontes governamentais e de organizações de direitos humanos citadas por esse jornal, as investigações sobre a morte de mais de 2 mil prisioneiros de uma prisão de Kunduz, que podem ter sido executados e sepultados em valas comuns pelas forças do general Abdul Rashid Dostum, foram paralisadas porque o senhor da guerra afegão trabalhava com a CIA.

Para Obama, “há responsabilidades que todas as nações têm, inclusive em tempos de guerra”.

Fonte: zerohora.com

A “missão” do Fortini

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Jayme Copstein

O velho Fortini, do qual já quase ninguém mais fala, marcou o jornalismo antigo. É nome de rua no centro da cidade por ter sido benfeitor da Santa Casa de Porto Alegre e do Hospital da Criança Santo Antônio. Não para aí sua contribuição à cidade: entre as muitas outras, está o monumento ao Expedicionário no Parque Farroupilha.

Conheci Fortini, quando fui trabalhar no Correio do Povo, em 1968. Já passava dos 80 anos, mais de 60 deles trabalhando no velho “róseo”. Não fora para casa, para curtir a aposentadoria, porque não quisera. Em 1945, ao comemorar o cinquentenário do Correio do Povo, Breno Caldas achou que devia recompensá-lo pelos serviços prestados. As relações de Fortini com os banqueiros da época, tinham sido decisivas para angariar o financiamento que preservou o jornal da falência, quando Caldas Júnior morreu em 1913.

No dia de Santo Antônio, do qual era devoto, Fortini foi chamado ao gabinete de Breno Caldas, para receber a notícia: seria aposentado com os vencimentos integrais e ganharia uma viagem à Itália, incluída no roteiro a tão sonhada romaria ao túmulo do santo da sua predileção.

Fortini só balbuciou um “obrigado” e voltou para a redação sem comentar nada com os colegas. Dali a instantes, o secretário da redação, Paulo de Gouvêa, avisou Breno Caldas que Fortini chorava copiosamente, debruçado em sua mesa, sem atender a ninguém.

Breno foi à redação e perguntou:

– O que há, Fortini?

A resposta foi um furacão. Fortini que sempre tratava o diretor por senhor, levantou-se com o dedo indicador em riste e voltou ao “tu” dos tempos em que Breno Caldas era moleque e de vez em quando era trazido pela mãe para visitar o jornal.

- Tu não podes fazer isso comigo. Se teu pai fosse vivo, tu ias ver uma coisa…

Fortini, baixinho, Breno Caldas, de estatura elevada, a ameaça, vindo de baixo para cima, tornava a cena engraçada. A redação inteira parou, entre comovida e divertida, à espera do desfecho.

Breno Caldas, fingindo severidade, mal contendo o riso, disse entre dentes:

- Então, tu queres mesmo é trabalhar, não é?

Fortini retomou imediatamente o cerimonioso:

- Sim, senhor, doutor Breno!

- Pois bem, continuou Breno Caldas. Vais trabalhar como nunca na tua vida. Primeira missão: Itália. Me traz uma reportagem completa sobre o túmulo de Santo Antônio. Ai de ti que tu não tragas. Olho da rua!

Feliz da vida, Fortini respondeu solene:

- Sim, senhor, doutor Breno!

Na volta da missão, trouxe o material que reuniu em livro – O poder da fé em Santo Antônio – após tê-lo publicado nas edições dominicais do Correio do Povo. E continuou trabalhando por mais 20 anos, até seis meses antes de morrer em 13 de junho de 1973. Por coincidência, dia de Santo Antônio, o santo da sua devoção.

Fonte: www.jaymecopstein.com.br

Barra Pesada: Um repórter policial fala de tiras e bandidos…

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por  Valacir Marques Gonçalves

Aos que não apreciam lembrar antigas histórias, dou um conselho: parem por aqui. Vou falar de um livro que li há muito. Seu título: “Barra Pesada”. Por acaso o reencontrei, empoeirado na prateleira de um “sebo”. Ele fala, principalmente, de polícia. Alguns vão relembrar, outros conhecerão uma polícia diferente, mostrada numa linguagem peculiar, com termos que revelam histórias de tiras e bandidos. Seu autor é Octávio Ribeiro, vulgo “Pena Branca”. Jornalista de profissão, dizia ter como psicose o perigo… Ele revelou sua “vida pregressa” num livro cativante, recheado de “mumunhas” espalhadas em “rounds” – nome que deu aos capítulos da sua obra. Com um estilo marcante, que inclui gírias e expressões da malandragem da época, descreveu, depois de 15 anos trilhando caminhos “traiçoeiros e espinhosos”, um tempo diferente. Através do “retângulo de capa dura”, deu sua versão, onde ponderou que “não curtiu os condimentos mágicos da literatura”, apenas “colou as consoantes nas vogais, tentando separar o bem do mal, como as grades separam o bandido dum policial…”.

As histórias começam na década de sessenta. Diferente de hoje, naquela época os policiais conhecidos não eram delegados… No Rio de Janeiro, destacavam-se os detetives Perpétuo e Le Cocq – aquele mesmo que acabou dando nome à famosa escuderia. “Pena Branca” revelou que “os canas transavam estilos diferentes”. Conta que “Perpétuo tinha cara de índio e um papo longo nos lábios”. Que “ele criou a maior rede de bandidos delatores que já houve no latifúndio do Cristo Redentor… Prendia sem dar tiros. Le Cocq era o inverso, defendia uma filosofia: ‘Quem tem pernas curtas vai à frente’. Tradução: bandido anão não tinha vez…”. Qual era a do Perpétuo?  “Pena Branca” responde:  “Um tira esperto: veneno na língua, sorriso aberto – um dos primeiros policiais a reconhecer o poder da imprensa. Ele papeava com repórter policial, fornecia mil informações, muitas frias, algumas quentes. Ganhou fama na lama, discutiu até com gago… Le Cocq não, evitava os jornalistas. Ele não queria acordo, o marginal teimoso morria. Quando o grupo dele surgia era aquela orgia, fugia até quem não devia…”.

No quarto “round” o “Pena” abre o jogo e “entrega” como tudo começou: “Em 1959 eu monologava com Pitágoras, era um ‘Pai Tomás’ numa cabana bancária. Na época, nunca havia curtido um cadáver gargalhando no IML. Um ano após, fui escalado para gravar as risadas da presuntada horizontal e as transas dos pêsames perfumados com formol. Depois cursei o vestibular dos mistérios, entrevistei maquiavélicos, oculei germes histéricos disputando os camarotes dos cemitérios, enfrentei os eruditos dos crimes, mergulhei nas calamidades públicas e prefaciei outras comédias da vida”. Perguntado como se investiga a morte de um cara odiado por todo mundo, ele explicou: “Primeiro, cutuca-se o singular, depois, se varre o plural. É uma técnica de triagem”. E o mais chato: Latrocínio ou homicídio? “Latrocínio, malandro. Homicídio você levanta virtudes e pecados depois ataca o veneno. Sempre existe um bom suspeito com vontade de matar. Latrocínio é diferente, mais invocado e sanguinário, né? O matador é mais perigoso”. Perguntaram ao “Pena Branca”, também, se o Mariel Mariscott era bom policial. Disse ele: “Era da safra nova da polícia carioca. Pena que tenha feito transplante de cuca, sem anestesia e com dupla rejeição. Quebrou bússola, casco furou, não viu gaivota ou terra à vista…”.

Sobre o jogo do bicho, ele deu uma aula. Mostrou as trampas, os sortudos e os azarados. Provocado, dissertou: “Quando alguém quer saber por que no bicho pinta a imagem da honestidade nesse mundo tão aventureiro, eu cutuco: Não jogue no cachorro, vaca, cobra, touro e carneiro. Aceite esse conselho, leitor. Vire as páginas e retranque o seu dinheiro”. – “Qual o seu signo?” –  perguntaram para ele. –  “Capricórnio, bode sofredor.”  – esclareceu. – “Você joga no bicho?”. Respondeu dizendo que “o jogo pode ser honesto, mas serve pra depenar patos e gansos. Que nunca viu banqueiro de bicho pobre”. Sobre os bichos, foi didático: “Número 1 – Avestruz: jogo bom pro banqueiro, dá muito, não é preferido pelos clientes. Número 2 – Águia: é um bicho que a freguesia tem uma simpatia. É ruim pra banca. Número 3 – Burro, compadre. Quase ninguém joga. Número 4 – Borboleta: mais do que menos. Muita gente joga na voadora colorida, acerta vez ou outra. Número 5 – Cachorro, malandro. Grande favorito do público. Aposta pesada diariamente. Custa a dar, é transa ruim pros banqueiros, difícil de acertar na cabeça”, ensinou. Os números dos bichos vão até o 25. Por falta de espaço, sou obrigado a ficar por aqui…

O livro tem quase trezentas páginas; são imperdíveis, principalmente, as entrevistas nas quais a polícia da época é dissecada. Mas não poderia encerrar sem comentar as visitas do “Pena Branca” ao morro da Mangueira. Selecionei algumas passagens. Diz o “Pena” que esteve lá acompanhado, mas que também “enfrentou sozinho a gravidade do morro”. Deixou claro que “só conseguiu dialetar com os ‘astuciosos aventureiros’ da montanha ao prometer-lhes que omitiria suas verdadeiras identidades”. Tirou deles que “no asfalto, em cada ponta de esquina tem uma placa com um nome. No morro, em cada virada de beco a morte tá com fome”. Os “astuciosos aventureiros” informaram também que “o ‘Buraco Quente’ sempre foi o foco da pesada – é o encontro da patota independente que não gosta do batente”. Perguntou finalmente para eles: – “Agora vem cá, malandro! Como é que os bandidos e os trabalhadores arranjam dinheiro para o carnaval?” – “Quem vive de trabalho honesto apanha empréstimo. As lavadeiras se viram nas tinas. Já a pesada segura o ‘querenque’ pra fazer um ganho…”.

É isso aí, quem quiser saber mais procure o “retângulo de capa dura” nos “sebos”. Quem não achar, mande o nome e “direção” que entra na fila do empréstimo…

e-mail   vala1@uol.com.br

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