A “missão” do Fortini

Memória Sem comentários »

Jayme Copstein

O velho Fortini, do qual já quase ninguém mais fala, marcou o jornalismo antigo. É nome de rua no centro da cidade por ter sido benfeitor da Santa Casa de Porto Alegre e do Hospital da Criança Santo Antônio. Não para aí sua contribuição à cidade: entre as muitas outras, está o monumento ao Expedicionário no Parque Farroupilha.

Conheci Fortini, quando fui trabalhar no Correio do Povo, em 1968. Já passava dos 80 anos, mais de 60 deles trabalhando no velho “róseo”. Não fora para casa, para curtir a aposentadoria, porque não quisera. Em 1945, ao comemorar o cinquentenário do Correio do Povo, Breno Caldas achou que devia recompensá-lo pelos serviços prestados. As relações de Fortini com os banqueiros da época, tinham sido decisivas para angariar o financiamento que preservou o jornal da falência, quando Caldas Júnior morreu em 1913.

No dia de Santo Antônio, do qual era devoto, Fortini foi chamado ao gabinete de Breno Caldas, para receber a notícia: seria aposentado com os vencimentos integrais e ganharia uma viagem à Itália, incluída no roteiro a tão sonhada romaria ao túmulo do santo da sua predileção.

Fortini só balbuciou um “obrigado” e voltou para a redação sem comentar nada com os colegas. Dali a instantes, o secretário da redação, Paulo de Gouvêa, avisou Breno Caldas que Fortini chorava copiosamente, debruçado em sua mesa, sem atender a ninguém.

Breno foi à redação e perguntou:

– O que há, Fortini?

A resposta foi um furacão. Fortini que sempre tratava o diretor por senhor, levantou-se com o dedo indicador em riste e voltou ao “tu” dos tempos em que Breno Caldas era moleque e de vez em quando era trazido pela mãe para visitar o jornal.

- Tu não podes fazer isso comigo. Se teu pai fosse vivo, tu ias ver uma coisa…

Fortini, baixinho, Breno Caldas, de estatura elevada, a ameaça, vindo de baixo para cima, tornava a cena engraçada. A redação inteira parou, entre comovida e divertida, à espera do desfecho.

Breno Caldas, fingindo severidade, mal contendo o riso, disse entre dentes:

- Então, tu queres mesmo é trabalhar, não é?

Fortini retomou imediatamente o cerimonioso:

- Sim, senhor, doutor Breno!

- Pois bem, continuou Breno Caldas. Vais trabalhar como nunca na tua vida. Primeira missão: Itália. Me traz uma reportagem completa sobre o túmulo de Santo Antônio. Ai de ti que tu não tragas. Olho da rua!

Feliz da vida, Fortini respondeu solene:

- Sim, senhor, doutor Breno!

Na volta da missão, trouxe o material que reuniu em livro – O poder da fé em Santo Antônio – após tê-lo publicado nas edições dominicais do Correio do Povo. E continuou trabalhando por mais 20 anos, até seis meses antes de morrer em 13 de junho de 1973. Por coincidência, dia de Santo Antônio, o santo da sua devoção.

Fonte: www.jaymecopstein.com.br

Barra Pesada: Um repórter policial fala de tiras e bandidos…

Memória 1 Comentário »

por  Valacir Marques Gonçalves

Aos que não apreciam lembrar antigas histórias, dou um conselho: parem por aqui. Vou falar de um livro que li há muito. Seu título: “Barra Pesada”. Por acaso o reencontrei, empoeirado na prateleira de um “sebo”. Ele fala, principalmente, de polícia. Alguns vão relembrar, outros conhecerão uma polícia diferente, mostrada numa linguagem peculiar, com termos que revelam histórias de tiras e bandidos. Seu autor é Octávio Ribeiro, vulgo “Pena Branca”. Jornalista de profissão, dizia ter como psicose o perigo… Ele revelou sua “vida pregressa” num livro cativante, recheado de “mumunhas” espalhadas em “rounds” – nome que deu aos capítulos da sua obra. Com um estilo marcante, que inclui gírias e expressões da malandragem da época, descreveu, depois de 15 anos trilhando caminhos “traiçoeiros e espinhosos”, um tempo diferente. Através do “retângulo de capa dura”, deu sua versão, onde ponderou que “não curtiu os condimentos mágicos da literatura”, apenas “colou as consoantes nas vogais, tentando separar o bem do mal, como as grades separam o bandido dum policial…”.

As histórias começam na década de sessenta. Diferente de hoje, naquela época os policiais conhecidos não eram delegados… No Rio de Janeiro, destacavam-se os detetives Perpétuo e Le Cocq – aquele mesmo que acabou dando nome à famosa escuderia. “Pena Branca” revelou que “os canas transavam estilos diferentes”. Conta que “Perpétuo tinha cara de índio e um papo longo nos lábios”. Que “ele criou a maior rede de bandidos delatores que já houve no latifúndio do Cristo Redentor… Prendia sem dar tiros. Le Cocq era o inverso, defendia uma filosofia: ‘Quem tem pernas curtas vai à frente’. Tradução: bandido anão não tinha vez…”. Qual era a do Perpétuo?  “Pena Branca” responde:  “Um tira esperto: veneno na língua, sorriso aberto – um dos primeiros policiais a reconhecer o poder da imprensa. Ele papeava com repórter policial, fornecia mil informações, muitas frias, algumas quentes. Ganhou fama na lama, discutiu até com gago… Le Cocq não, evitava os jornalistas. Ele não queria acordo, o marginal teimoso morria. Quando o grupo dele surgia era aquela orgia, fugia até quem não devia…”.

No quarto “round” o “Pena” abre o jogo e “entrega” como tudo começou: “Em 1959 eu monologava com Pitágoras, era um ‘Pai Tomás’ numa cabana bancária. Na época, nunca havia curtido um cadáver gargalhando no IML. Um ano após, fui escalado para gravar as risadas da presuntada horizontal e as transas dos pêsames perfumados com formol. Depois cursei o vestibular dos mistérios, entrevistei maquiavélicos, oculei germes histéricos disputando os camarotes dos cemitérios, enfrentei os eruditos dos crimes, mergulhei nas calamidades públicas e prefaciei outras comédias da vida”. Perguntado como se investiga a morte de um cara odiado por todo mundo, ele explicou: “Primeiro, cutuca-se o singular, depois, se varre o plural. É uma técnica de triagem”. E o mais chato: Latrocínio ou homicídio? “Latrocínio, malandro. Homicídio você levanta virtudes e pecados depois ataca o veneno. Sempre existe um bom suspeito com vontade de matar. Latrocínio é diferente, mais invocado e sanguinário, né? O matador é mais perigoso”. Perguntaram ao “Pena Branca”, também, se o Mariel Mariscott era bom policial. Disse ele: “Era da safra nova da polícia carioca. Pena que tenha feito transplante de cuca, sem anestesia e com dupla rejeição. Quebrou bússola, casco furou, não viu gaivota ou terra à vista…”.

Sobre o jogo do bicho, ele deu uma aula. Mostrou as trampas, os sortudos e os azarados. Provocado, dissertou: “Quando alguém quer saber por que no bicho pinta a imagem da honestidade nesse mundo tão aventureiro, eu cutuco: Não jogue no cachorro, vaca, cobra, touro e carneiro. Aceite esse conselho, leitor. Vire as páginas e retranque o seu dinheiro”. – “Qual o seu signo?” –  perguntaram para ele. –  “Capricórnio, bode sofredor.”  – esclareceu. – “Você joga no bicho?”. Respondeu dizendo que “o jogo pode ser honesto, mas serve pra depenar patos e gansos. Que nunca viu banqueiro de bicho pobre”. Sobre os bichos, foi didático: “Número 1 – Avestruz: jogo bom pro banqueiro, dá muito, não é preferido pelos clientes. Número 2 – Águia: é um bicho que a freguesia tem uma simpatia. É ruim pra banca. Número 3 – Burro, compadre. Quase ninguém joga. Número 4 – Borboleta: mais do que menos. Muita gente joga na voadora colorida, acerta vez ou outra. Número 5 – Cachorro, malandro. Grande favorito do público. Aposta pesada diariamente. Custa a dar, é transa ruim pros banqueiros, difícil de acertar na cabeça”, ensinou. Os números dos bichos vão até o 25. Por falta de espaço, sou obrigado a ficar por aqui…

O livro tem quase trezentas páginas; são imperdíveis, principalmente, as entrevistas nas quais a polícia da época é dissecada. Mas não poderia encerrar sem comentar as visitas do “Pena Branca” ao morro da Mangueira. Selecionei algumas passagens. Diz o “Pena” que esteve lá acompanhado, mas que também “enfrentou sozinho a gravidade do morro”. Deixou claro que “só conseguiu dialetar com os ‘astuciosos aventureiros’ da montanha ao prometer-lhes que omitiria suas verdadeiras identidades”. Tirou deles que “no asfalto, em cada ponta de esquina tem uma placa com um nome. No morro, em cada virada de beco a morte tá com fome”. Os “astuciosos aventureiros” informaram também que “o ‘Buraco Quente’ sempre foi o foco da pesada – é o encontro da patota independente que não gosta do batente”. Perguntou finalmente para eles: – “Agora vem cá, malandro! Como é que os bandidos e os trabalhadores arranjam dinheiro para o carnaval?” – “Quem vive de trabalho honesto apanha empréstimo. As lavadeiras se viram nas tinas. Já a pesada segura o ‘querenque’ pra fazer um ganho…”.

É isso aí, quem quiser saber mais procure o “retângulo de capa dura” nos “sebos”. Quem não achar, mande o nome e “direção” que entra na fila do empréstimo…

e-mail   vala1@uol.com.br

blog     www.valacir.com

REQUIEM PARA AS CARTAS

Memória Sem comentários »

29 de Junho de 2009 às 17:53 Ruy Gessinger

Quantas poesias, crônicas, livros, canções, foram dedicados às cartas. Love Letters, Cartas de Amor.

Nas línguas que eu compreendo, há inúmeras obras de arte tendo-as por objeto. E aí entra o carteiro, a espera por ele, a aflição da espera. Em vários países havia o Correio Aéreo. Nas guerras, eram as portadoras de más e boas notícias. Mas sempre indispensáveis. Cartas foram elemento de convicção em várias ações com as quais tive contato: foram prova em ações de investigação de paternidade, provas de adultério, provas até de crimes.

Geralmente, no entanto, foram usadas para transmitir amor, afeição, amizade.

A informática, tão benéfica, trouxe, no entanto, em seu bojo, a inexorável sentença de morte das missivas escritas.

Tenho um querido e bom amigo de minha idade. Nossos pais foram amigos. Estudamos juntos todo o ensino básico, cursamos juntos a faculdade e tivemos, por dois anos, sociedade num escritório de advocacia. A partir dos 26 anos passamos a morar em cidades diferentes. Ele hoje vive em Florianópolis. Até há uns dez anos nos mandávamos cartas. Isso implicava escrever a mão, dobrar, fechar o envelope e o levar ao Correio.

Meu amigo não se amansou no Computador, negou sua existência, assim como não quis saber de celular , nem de CDs. Não sabe fazer home banking.

Nossos contatos passaram a ser feitos por telefone fixo, o que hoje não é prático.
Ele continuou a me mandar cartas por alguns anos. Eu as respondia mandando mails para seu filho, a quem pedia que os imprimisse e entregasse a ele. O filho dele fez isso duas vezes e depois não mais.
Nossa amizade mermou. Ficamos distantes.
Fui visitá-lo um dia, depois de anos de ausência. Nossa conversa durou só 15 minutos. Tínhamos mudado os dois.
Abrimos um vinho e colocamos na vitrola dele um LP: Requiem de Wolfgang Amadeus Mozart.

Ouvimo-lo até o fim em silêncio. Nos despedimos dispensando-nos um ao outro de comparecer as exéquias do primeiro que partisse.

Fonte: http://blog.gessinger.com.br/

DOMINGOS NA MINHA ADOLESCÊNCIA

Memória Sem comentários »

27 de Junho de 2009 às 18:41
por Ruy Gessinger

Não sei não, acho até meio piegas o que ando escrevendo. Mas como recebí várias mensagens dizendo para continuar, então tenho um bando de piegas junto comigo. Vamos lá.

A Santa Cruz dos meus 16 anos foi a coisa mais linda que já ví. Pena que não existe mais aquela. O que não desmerece a atual.

Era uma cidade de tamanho médio, mas muito rica, tanto economica, como culturalmente. Sempre houve imigrantes alemães em Santa Cruz. Meus avós eram. Mas, após a guerra vieram levas de novos alemães e, atrás do fumo e seus desdobramentos, acorreram norte-americanos, holandeses, ingleses.

Ao lado de nossa casa, na rua Tomás Flôres, bem no centro, veio morar uma família de americanos. O filho do casal, Steve, usava umas calças super estranhas. Eram de uma espécie de lona azul, com rebites nos bolsos ( era os primeiros jeans) e usava camisas vermelhas!! Sim, um homem usando vermelho.

Santa Cruz tornou-se uma cidade germano-americana. Nos bailes glamurosos as mulheres vestiam-se como nos filmes. As orquestras ( Cassino e Jatibá), imitavam Glenn Miller.

Domingos, às dez da manhã, iniciava-se o ” footing” na rua principal. Era um desfile incrível de toda a juventude da cidade, tanto católicos , como protestantes. Havia as ” turmas” de rapazes, que andam em grupos, sempre com um líder. Eu tinha a minha, mas transitava por outras.

Nesses footings combinava-se com as gurias o encontro no cinema, às 14 horas. Deixava-se as luzes se apagarem e a gente se sentava ao lado da menina. Com o tempoo ficava-se de maozinhas e em seguida saiam os beijinhos.

Terminada a ” matinée” no cinema, seguia-se, lá pelas 18 horas, a soirée dançante num dos clubes. Muito bolero e samba-canção. Rosto colado, às vezes dançando apertado e a menina colaborando encostando sua saia mais rodada na pausa, para ajudar a gente a disfarçar a ereção.

Por volta de 20 horas terminava a brincadeira e volta pra casa para terminar os deveres.

Outro grande lance, em matéria de posicionamento social, era ser sócio do Tênis Clube. O Tênis foi o primeiro clube a construir uma piscina em S. Cruz. Eu ralei vendendo cestas de natal e outras bugigangas para comprar um título. Coloquei, aos 16 anos, minhas irmãs de minhas dependentes.

Que dia feliz quando também eu peguei um calção seco , enrolado numa toalha onde estava escrito ” bom dia” ( quem andava com isso no centro estava mostrando que ia tomar banho de piscina e que, portanto, pertencia à high society). Primeiro desfilei com minha toalhinha o que pude lá pelo centro. Depois me dirigí ao Tênis. Que emoção quando mergulhei naquela aguinha azul e transparente! Aquilo era tudo o que eu queria na vida. Aquilo era meu céu.

Da piscina obervava as garotas desfilando com seus maiôs e suas protuberâncias, motivos de tantos ” pecados solitários”.
Aos 16 anos eu fui o garoto mais feliz do mundo. Eu tinha uma bici, era sócio do Tênis Clube e tinha uma namoradinha que me dava beijos na boca.
Depois, chegou a vez de ir a P. Alegre: vendí a Bici, vendí o título do Tênis, perdí minha namorada para um velho de 23 anos do Banco do Brasil e tudo mudou.

Mas isso é outra História.

Outra hora volto com a síndrome que alguns tinham: ter vergonha de ser ” alemão”.

Fonte: http://blog.gessinger.com.br/

AINDA OS DOMINGOS DE MINHA INFÂNCIA

Memória Sem comentários »

22 de Junho de 2009 às 15:13 Ruy Gessinger

Mal postara a matéria (veja abaixo) e me vieram telefonemas e mails emocionados. Destaco o da dra. Marta Marchiori, que falou meia hora comigo ao telefone. Marta é odontóloga renomada e cabanheira de Angus.

Mails do meu colega de infância Guti ( dr. Luiz A.Beck da Silva) e do parceiro e amigo Des. Eliseu Gomes Torres

Amigo Ruy. Por alguns momentos, revivi os domingos de antanho. Aqueles em que as famílias se visitavam, perdiam-se horas em conversas amenas, seria impensável discutir as ladroagens de hoje, os escândalos, a deterioração da moral e dos costumes. O dia escoava devagarinho como a vida corria. Um ano levava séculos para fluir e preparava-se uma viagem a Porto Alegre com um ritual interminável e buliçoso. Senti os aromas das coisas da colônia, as rugas a documentar,nas faces curtidas dos homens do campo e da colônia, os pesados afazeres de quem lavrava a terra. Passei a entender melhor teu caráter e teu temperamento ; tua enorme sensibilidade e teu pendor para a música. Tudo está muito mudado. E para pior. Mas enquanto houve neste mundo quem requente na panela da memória, aqueles dias memoráveis, ainda haverá esperança. Obrigado e parabéns. Do Eliseu Gomes

Pois com essa baita receptividade, quem sabe paro de falar em coisas sérias e passo só a escrever reminiscências?

Chasques eletrônicos para ruy@gessinger.com.br

Fonte: http://blog.gessinger.com.br/

Homens arrombam duas agências bancárias e a Câmara de Almirante Tamandaré

Humor, Memória, País, Polícia Sem comentários »

Segundo a polícia, os roubos foram vistos por alguns moradores
Leandro Belles | leandro.belles@zerohora.com.br

Três homens fortemente armados teriam quebrado a porta de vidro da cooperativa de crédito Cresol, em Almirante Tamandaré do Sul, no norte do Estado, entrado no prédio e arrombado o cofre na madrugada de hoje. Logo em seguida, o grupo, que estaria em um Golf branco, arrombou a porta de vidro da agência do Banrisul local, mas não teria conseguido roubar nada.

O prédio da Câmara de Vereadores da cidade também foi alvo dos ladrões. Eles arrombaram um cadeado e entraram no local, mas também não roubaram nada.

Segundo a polícia, os roubos foram vistos por alguns moradores. Até o início da manhã de hoje, a polícia não tinha pistas sobre a identidade dos criminosos.

Fonte: zerohora.com

Comenta o blogueiro – fizeram uma verdadeira festa naquela cidade e isto se explica pelo fato de que a polícia ostensiva não mais vem se empenhando em suas obrigações preferindo o fazer política como nunca antes e ainda fazendo POLÍCIA POLÍTICA.

OS SINOS DE MINHA TERRA NATAL

Memória Sem comentários »

31 de Maio de 2009 às 17:16 Ruy Gessinger

Como gosto defazer aos domingos, quando retorno a P. Alegre para trabalhar toda a semana, passei em Santa Cruz para visitar minha mãe, forte como um cerne de carvalho das montanhas germânicas nos seus 88 anos.

Sentados na cozinha de sua casa situada num latifúndio urbano a metros da Catedral, comida sendo feita no fogão a lenha, começaram as relembranças, sempre a gente falando em alemão.

Quando foi meio dia, tocou um dos quatro sinos de nossa Catedral Gótica.

- Mutter – perguntei – aqui em Santa Cruz os sinos ainda tocam de um jeito quando é um homem que morre, doutro, quando é mulher e doutro ainda quando é criança?

( Transportei-me para os anos 50 e 60. A gente sabia, quando tocavam os sinos, se era homem, mulher, ou criança que tinha morrido).

Não, disse-me ela. Desde que os homens que sabiam tocar os sinos foram morrendo, esse costume desapareceu. O último que sabia tocar os sinos era o sr. Konzen, que já faleceu.

- Mutter, e os sinos eram mesmo afinados em do, mi, sol e si?

- Isso é teu Vater que sabia…
Me lembro quando havia missas solenes. Os quatro sinos tocavam ao mesmo tempo, num concerto divino que se ouvia nas colônias em volta.

Da casa de minha mãe fito a Catedral com suas enormes torres.

Lá estão os sinos, fundidos e afinados na Alemanha.
Estarão mesmo afinados em intervalos de terça? Acho que não. Eram tristes demais as badaladas quando morria uma criança. Do, mi e sol naturais não são tristes.

Pena que o sr. Konzen faleceu. Com ele morreu um pouco mais a Santa Cruz de minha infância.

Fonte:  http://blog.gessinger.com.br/

O dono da vida

Memória Sem comentários »

17/05/09

Jayme Copstein

Naquele tempo, logo depois das diligências, quando estrada era tudo carreteira e ônibus não tinha privada, viajei de Bagé a Santa Maria. Passava uma hora, se tanto, que tínhamos deixado para trás o restaurante de beira de estrada, levando no bucho uma feijoada que a uns mergulhava em bem-aventurança, a outros, em aflição.

Como ainda havia umas quatro horas de sacolejo pela frente, tentei matar o tempo, passando os olhos pelos demais passageiros. Ninguém de chamar a atenção. Éramos 60 pessoas compartilhando absoluta falta de intimidade. Até os que se acompanhavam, só cochichavam mesmo as banalidades.

De repente, a modorra se estilhaçou, com a voz estrangulada de angústia saindo de entranhas:

- Para el coche! Para el coche!

O motorista guinchou no freio. Um castelhano clinudo, veio correndo lá do fundo, segurando a barriga como se recém tivesse sido estripado, e mergulhou na paisagem. Só que era descampado, não havia nenhum atrás-da-árvore.

O ônibus se acendeu em murmúrios. A situação do castelhano era precária. O que fazer, o que não fazer para lhe poupar constrangimento na volta. Um sorriso de compreensão porque a vida tem seus naturais? Quem sabe fingíamos não entender castelhano e não ter percebido o que acontecera?

Pois estávamos todos nestas indecisões, quando o castelhano voltou. Subiu no ônibus muito senhor de si, estufou o peito com olhar de triunfo, bateu com ruído as duas mãos na barriga e proclamou ao mundo:

- Ahora, si, soy otro hombre! Siga el coche!

Todos baixamos os olhos, encabulados.
fonte: www.jaymecopstein.com.br

PARA MINHA MUTTER

Memória Sem comentários »

Arquivo do autor

Kommt ein Vogel geflogen,
Setzt sich nieder auf mein’ Fuß
Hat ein Zettel im Schnabel,
Von der Mutter (Liebsten) ein’ Gruß

( VEM UM PASSARINHO VOANDO,
POUSA JUNTO AO MEU PÉ
TEM UM BILHETE NO BICO
DE MINHA MÃE UM CARINHO)

Traduzi Gruss por carinho, porque ” saudação” fica muito frio.

Essa é a primeira canção em alemão que aprendí com minha querida mãezinha Ludmila. Eu adorava: sempre cantávamos juntos. Depois, já adulto, quando viajávamos só nós dois de carro, entoávamos hinos religiosos, todos em alemão. Não tem coisa melhor do que cantar hinos, mesmo não se tendo religião. É o máximo.
Mais lindo é arriscar fazer uma segunda voz, cantando uma terça abaixo.

Que emoção quando ela extorquiu dinheiro do meu pai e gloriosamente fomos os dois a pé até o Bazar do seu Fritz Rech em Santa Cruz para comprar meu primeiro violino. Noviiinho em folha. Estojo aveludado por dentro, violino brilhando. Lá estavam as cordas, dos bordões às primas – sol, re, la, mi.

Um violino só para mim.
Fui correndo na Dona Amália Eidt para afinarmos bem direitinho.

Aquele violino sempre foi minha salvação. A partir dos 15 anos nunca fiquei solteiro numa festa, sempre arrumava uma prestimosa companhia feminina para tocar.

Toquei em Califórnias, nos Foros, em todo o Brasil ( por ocasião de congressos e torneios de tênis). Mas meu maior feito foi tocar no saguão do Aeroporto do Rio de Janeiro, com vários amigos violeiros, enquanto o avião não vinha.

Outra vez, vinha com uma excursão de promotores de justiça e paramos naquele restaurante Papagaio, ali em Cacheira. Era domingo de tarde. Tocava uma típica, que tinha um violinista. Na hora de uma paradinha, subornei o violinista com cervejas e tomei seu lugar. Toquei 3 horas e só parei quando os companheiros concretizaram as ameaças de irem embora sem mim.

Mãezinha: tu me fizeste estudar, me deste duro, me proibiste de ir na zona do meretrício , me afastaste das mulheres que achavas que não me serviam, me ensinaste alemão desde bebê, me curaste de mil tristezas, mas sem o violino eu não seria tão feliz.

É como diz o Jorge Gerdau, nem por milhões de dólares se consegue ” comprar” saber tocar um instrumento.
Tocar um instrumento é ter linha direta com os deuses.

Vielen Dank, liebe Mutter!!!!

( aos meus conspícuos leitores peço desculpas pelo melodrama, mas… mãe é mãe…)

fonte: http://blog.gessinger.com.br/author/ruy/

Leandro Fortes: O empresário Gilmar

Memória Sem comentários »

CARTA CAPITAL – 05/10/2008

O empresário Gilmar

“Quem quiser ficar rico, não vá ser juiz”

João Batista de Arruda Sampaio, desembargador e jurista (1902-1987)

Leandro Fortes

Colaboraram Filipe Coutinho e Phydia de Atahyde

Desde que veio à tona a história do suposto grampo de uma conversa com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, galvanizou os anseios de uma parte da sociedade que enxerga nos ministros de tribunais superiores a chance de controlar o poder negado nas urnas em eleições recentes. Como “vítima” de uma interceptação ilegal até agora não comprovada, Mendes acabou alçado à condição de paladino do Estado de Direito, dos valores republicanos e, por que não, da moralidade pública.

O episódio exacerbou uma tendência crescente do STF, a de interferir além dos limites de sua atribuição na vida dos demais poderes. Coube a Mendes chegar ao extremo, quando chamou “às falas” o presidente da República por conta da mal-ajambrada denúncia do tal grampo. O Congresso, a Polícia Federal, os juízes de primeira instância, o Ministério Público, ninguém escapa da fúria fiscalizadora do magistrado que ocupa o principal cargo do Poder Judiciário no Brasil.

Quem tem a pretensão e o pendor para “varão de Plutarco”, presume-se, segue à risca na vida particular os padrões morais que prega aos concidadãos. Não parece ser este o caso de Mendes. A começar pela sua participação no controle acionário do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Há de cara um conflito ético, ainda que as regras da magistratura não sejam claras o suficiente sobre a permissão de juízes possuírem negócios. Criado em 1998, o IDP organiza palestras, seminários e treinamento de pessoal, além de oferecer cursos superiores de graduação e pós-graduação. Entre 2000 e 2008, faturou cerca de 2,4 milhões de reais em contratos com órgãos ligados ao governo federal, todos firmados sem licitação. No quadro de professores contratados pelo instituto figuram ministros de Estado e dos tribunais superiores, e advogados renomados, vários deles defendendo clientes com ações que tramitam no STF presidido por Mendes.

A Lei Orgânica da Magistratura deixa dúvidas sobre os limites da atuação de juízes além dos tribunais. O parágrafo 2º do artigo 36 diz ser vedado exercer cargo de direção ou técnico de sociedade civil, caso do IDP, mas nada diz sobre possuir ações ou cotas do empreendimento. Magistrados mais antigos sempre interpretaram que a lei só permite ao juiz dar aulas remuneradas, nada mais. A visão tem mudado. Estudiosos do Direito como David Teixeira de Azevedo, professor da Universidade de São Paulo, e Dalmo Dallari, professor aposentado da USP, afirmam que não há nada na legislação que proíba expressamente a participação societária em empresas privadas. “É preciso ver, porém, se o juiz se valeu de sua condição para obter qualquer tipo de benefício.”

O que se pode dizer do IDP é que gravitam ao seu redor nomes de peso da República. O corpo docente é formado por 87 professores, entre eles dois ministros do governo Lula, Nelson Jobim (Defesa) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). Eventualmente dão palestra no instituto, José Antônio Toffoli, advogado-geral da União, e Mangabeira Unger, do Planejamento Estratégico. Unger, por exemplo, esteve lá na quinta-feira 2, na abertura do 11º Congresso Brasiliense de Direito Constitucional.

Vários dos colegas de tribunal também são docentes do instituto: Carlos Alberto Direito, Carlos Ayres Britto, Carmem Lúcia Rocha, Eros Grau e Marco Aurélio Mello. Há ainda diversos titulares do Superior Tribunal de Justiça.

O presidente do STF tem dois sócios na escola. Um deles é o procurador regional da República Paulo Gustavo Gonet Branco, o outro, o advogado lnocêncio Mártires Coelho, último procurador-geral da República da ditadura, nomeado pelo general-presidente João Baptista Figueiredo, em junho de 1981. De acordo com a junta Comercial do DF, cada sócio desembolsou 402 mil reais, num total de 1, 2 milhão de reais, para fundar o IDP.

O investimento parece ter dado frutos. O IDP mantém, por exemplo, contrato com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualmente presidido por Carlos Ayres Britto, que substituiu na função Marco Aurélio Mello. Já o faturamento em contratos com a União cresceu após Mendes ter sido nomeado ministro do Supremo. De 2003 para cá, o valor somou 1, 6 milhão de reais, segundo dados disponíveis no site Contas Abertas (www. contasabertas. com. br). O mês de setembro foi particularmente pródigo: 350 mil reais em convênios. Todos, repita-se, firmados sem licitação.

No Portal da Transparência da CGU. mantido pelo governo federal, há dados interessantes sobre os contratos do instituto. Dentro das guias de pagamento do portal, aparece um acordo com a Receita Federal até para trabalho aduaneiro.

Têm sido comuns também contratos com a Força Aérea Brasileira. Tanto interesse da FAB nas consultorias do instituto do ministro Gilmar Mendes tem uma razão de ser. O diretor geral do IDP é um experiente coronel da reserva da Aeronáutica, Luiz Fernandes de Oliveira, segundo ele mesmo, com carta-branca dos sócios para fazer tudo, “menos fechar o IDP”. Aviador por formação, com cursos de administração pública na Fundação Getúlio Vargas e de Ciências Políticas Militares, no Exército, o coronel Fernandes é um velho conhecido do brigadeiro Juniti Salto, com quem trabalhou na FAB. Bem articulado, o diretor-geral fechou bons contratos para o IDP, e não somente na Aeronáutica.

Os valores recebidos da União pelo IDP, em 2008, devem-se, sobretudo, a três contratos firmados com o Senado Federal, o STJ e a Receita Federal. Do Senado, o instituto do ministro Mendes recebeu 125 mil reais, para ministrar um curso de Direito Constitucional para “consultores e demais servidores” da Casa. No STJ, o curso é de Direito Tributário, voltado para servidores lotados em gabinetes de ministros, ao custo de 88, 2 mil reais. E, finalmente, da Receita Federal o IDP recebeu 117, 9 mil reais para também aplicar um curso de Direito Tributário a funcionários do órgão.

Pelo Portal da Transparência é possível saber que a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional contratou o IDP para gerir o programa de “Recuperação de Créditos e Defesa da Fazenda Nacional”, por 11 mil reais. O interessante é que, entre os professores do IDP, há três procuradores da Fazenda Nacional: Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, José Levi Mello do Amaral Júnior e Rodrigo Pereira de Mello.

Há mais. Em 2006, a Receita Federal pagou 16 mil reais ao IDP na rubrica “Administração do Programa” e “Arrecadação Tributária e Aduaneira” do Aeroporto de Brasília. Segundo a assessoria do órgão, a Receita pagou curso de pós-graduação em Direito Tributário a servidores. Na mesma linha, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do MEC pagou 58 mil reais ao IDP para “Controle e Inspeção da Arrecadação do Salário-educação e sua Regular Aplicação” dentro do programa de Gestão da Política de Educação.

Os cursos oferecidos pelo IDP também foram contratados pela Procuradoria-Geral do Distrito Federal (PGDF), que pagou 690 mil reais para oferecer a 92 procuradores do DF pós-graduação em Direito Público, entre março de 2006 e junho de 2007. Assim como nos outros contratos, a licitação foi considerada “inexigível”. No período em que Jobim presidiu o STF, entre 2005 e 2006, o tribunal gastou quase 50 mil reais em cursos e eventos oferecidos pelo instituto de Mendes, tudo sem licitação, na modalidade “inexigível”, ou seja, a partir do pressuposto de não haver outra entidade capaz de prestar serviços semelhantes. De fato, ao congregar quase uma centena de advogados, ministros, promotores, juízes, auditores, procuradores e auditores no corpo docente do IDP, Gilmar Mendes praticamente anulou a possibilidade de surgirem outras instituições capazes de prestar os mesmos serviços em Brasília.

Em 2006, reportagem do jornal O Globo denunciou uma das relações estranhas do IDP com o STF. Então presidente interino do Supremo (a titular, Ellen Gracie Northfleet, estava de licença médica), a única saída de Mendes foi transformar em “bolsa de estudos” um empenho de 3, 6 mil reais referente a um curso de mestrado em Ações Constitucionais ministrado pelo IDP a três funcionários do Supremo. Ao se justificar, o ministro alegou não ter havido irregularidade porque cabia aos servidores escolher o curso e a escola onde pretendiam fazer as especializações. Só se esqueceu de dizer que, como o IDP tem o monopólio desses cursos em Brasília, o instituto não só foi o escolhido como, claro, caiu na modalidade “inexigível” de licitação.

Ainda assim, as poucas tentativas de impedir o presidente do STF de usar de influência para conseguir contratos no governo, até hoje, foram em vão. A primeira delas ocorreu em abril de 2002, pouco antes de ele ser nomeado ao STF, quando o Ministério Público Federal instaurou uma ação de improbidade administrativa justamente por Mendes ter contratado o IDP para dar cursos no órgão do qual era o principal dirigente, a Advocacia-Geral da União. No STF, onde o caso foi parar, a ministra Ellen Gracie (indicada por Jobim, referendada por FHC) decidiu pelo arquivamento da ação. O Supremo nem sequer analisou um recurso do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, contra a decisão.

A sede do IDP é um amplo prédio de quatro andares, onde, segundo o site do instituto, há 22 salas de aula “amplas e confortáveis”, uma biblioteca informatizada (não é verdade), um foyer para realização de eventos acadêmicos, um auditório com capacidade para 240 espectadores (ainda em construção) e estacionamentos interno e externo (neste caso, trata-se das ruas ao redor da escola). Na fachada do edifício há uma placa na qual se lê: “Empreendimento financiado com recursos do Fundo Constitucional do Centro Oeste FCO”. Trata-se de dinheiro gerenciado pelo Banco do Brasil, a partir de um contrato fechado durante um churrasco na laje do IDP, em 2006, quando o prédio ainda não estava pronto.

Antes, um pouco de história. O IDP começou a funcionar, em 1998, na casa do ex-procurador-geral Inocêncio Coelho, no Lago Sul, uma área de casarões em Brasília. As aulas ocorriam em uma só sala, mas, com o aumento da procura pelos alunos, os três sócios acharam por bem procurar outro lugar. Em 2004, encontraram um terreno de 2, 5 mil metros quadrados na Quadra 607 da avenida L2 Sul, ao preço de 2, 2 milhões de reais.

Para viabilizar a compra, o grupo recorreu, então, ao Programa de Promoção do Desenvolvimento Econômico Integrado e Sustentável (Pró-DF II), criado pelo ex-governador Joaquim Roriz (PMDB). O Pró-DF II tem corno objetivo gerar emprego e renda a partir de benefícios fiscais dados aos empresários, principalmente os de pequeno porte. Para isso, o governo do Distrito Federal diminui impostos e dá descontos de até 80% no valor do terreno a ser utilizado pelo empresário. O subsecretário do programa, Engels Rego, não sabe explicar como o IDP foi enquadrado na rubrica de “setor produtivo”.

De acordo com o subsecretário, pelos parâmetros atuais, definidos no governo Arruda, o IDP não teria recebido um terreno na L2 Sul, área central do Plano Piloto de Brasília, onde praticamente não há mais espaços disponíveis. “A política da secretaria nessa gestão é incentivar o setor produtivo nas regiões administrativas, para desafogar o Plano Piloto e desenvolver as outras áreas da cidade”, afirma.

Autor de uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra o Pró-DF II, por não concordar com a política de composição do conselho deliberativo do programa, o presidente da Federação das Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal (Fempe-DF), Sebastião Gabriel de Oliveira, conta jamais ter visto um micro e pequeno empresário local conseguir terreno no Plano Piloto, como o do prédio do IDP. “As micro e pequenas empresas nunca tiveram esse privilégio, a gente não tem cacife para isso”, garante.

Os trés sócios do IDP assinaram o contrato com o Pró-DF II em 1° de setembro de 2004, quando Mendes já estava no STF. Os donos do instituto conseguiram enquadrar o negócio nos parâmetros do programa do governo distrital e obtiveram, ao fim do processo, o maior desconto possível, de 80%. Assim, o terreno, cujo preço original era de 2, 2 milhões de reais, foi financiado, em cinco anos, por 440 mil reais – o preço de um apartamento de quatro quartos, no mesmo bairro.

A boa estrela, digamos, do IDP não parou de brilhar por aí. Em fevereiro de 2005, quando se iniciaram as obras no terreno da L2 Sul, o caixa do instituto, segundo o diretor-geral Luiz Fernandes, dispunha de 3 milhões de reais. O dinheiro, diz ele, não era suficiente para levantar o prédio totalmente, razão pela qual Fernandes teve de correr atrás de um empréstimo, inicialmente, sem sucesso. Quando o primeiro piso do edifício ficou pronto, organizou-se a chamada “festa da cumeeira”, com o tal churrasco assado sobre a laje pioneira. Um dos convidados, conta Luiz Fernandes, era um gerente do Banco do Brasil que, entre uma picanha e outra, quis saber de Inocêncio Coelho a razão de não haver nenhuma placa do banco na frente da obra. “Não tem placa porque não tem financiamento algum”, disse o sócio do IDP. Foi quando o gerente os aconselhou a procurar o Fundo Constitucional do Centro Oeste (FCO), gerido pelo Banco do Brasil e, normalmente, destinado a projetos muito diferentes dos propostos pelo instituto.

No primeiro balanço trimestral de 2008, o FCO liberou mais de 450 milhões de reais. Pouco mais de 190 milhões (40%) foram destinados a micro e pequenas empresas. As companhias de médio porte receberam 32%, ou 150 milhões de reais. A prioridade de investimento do fundo é, porém, o meio rural, que recebeu 278 milhões de reais (60%). O setor de comércio e serviços aparece apenas em terceiro lugar, com desembolso de 62 milhões de reais, ou 13% do fundo. Mesmo assim, e sem se encaixar exatamente no perfil, o IDP apresentou-se como “pequena empresa” do setor de serviços para solicitar o financiamento.

A política do FCO visa, preferencialmente, atividades comprometidas com a utilização intensiva de matérias-primas e mão-de-obra locais, sobretudo na produção de alimentos básicos. A análise dos pedidos de empréstimos leva em conta a preservação do meio ambiente e busca incentivar a criação de novos pólos de desenvolvimento capazes de reduzir as diferenças econômicas e sociais entre as regiões.

Ainda assim, graças ao churrasco da laje, o IDP conseguiu arrancar do fundo, com prazo de pagamento de dez anos, um financiamento de 3 milhões de reais, com base na rubrica “instalação, ampliação e modernização de estabelecimentos de ensino e de prática de esportes”. Como garantia para o empréstimo, diz Fernandes, os sócios ofereceram patrimônios pessoais. Mendes colocou à disposição do Banco do Brasil uma fazenda em Mato Grosso. Inocêncio Flores e Paulo Gonet, as casas onde moram, no Lago Sul de Brasília. Nenhum dos três atendeu aos pedidos de entrevi sta de Carta Capital. A assessoria de imprensa do presidente do STF deu, em particular, uma desculpa que até agora causa perplexidade. Segundo a assessoria, Mendes não costuma conceder entrevistas.

A escola tem 22 funcionários, segundo informação do diretor-geral. Os 87 professores anunciados no site não são contratados formalmente, mas profissionais requisitados para cursos específicos, para cursos específicos, pagos pelo sistema de Recebimento de Pagamento Autônomo (RPA). O corpo docente recebe, em média, 6 mil reais por mês, a depender do status acadêmico ou de poder de cada um.

Antes de ser inaugurado, em setembro de 2007, o prédio do IDP sofreu um embargo de seis meses da Secretaria de Desenvolvimento e Turismo (SDET) do Distrito Federal, comandada pelo maior empreiteiro da cidade, o vice-governador Paulo Octávio.

Os fiscais da secretaria descobriram que a obra tinha avançado três metros além da altura máxima permitida pelo gabarito de ocupação da capital. Fernandes garante ter resolvido o assunto burocraticamente, sem interferência política.

Mendes, pelas limitações da Lei Orgânica da Magistratura, não ocupa cargo executivo no IDP, mas costuma fazer retiradas em dinheiro. Na última, pagou 20 mil reais. No STF, seu salário é de 24, 5 mil reais por mês. Além disso, de acordo com Fernandes, o IDP tem restituído aos sócios, em parcelas mensais, 125 mil reais que cada um foi obrigado a desembolsar, no ano passado, para completar o dinheiro da obra do prédio.

O diretor-geral admite ter suspendido as pretensões de contratos com o STF, em 2006, quando veio a público a ligação de Mendes com o instituto. Isso não o impediu, porém, de fechar contratos com o STJ, de onde são oriundos sete professores do IDP. Nem no Senado Federal, onde a influência do presidente do STF ajudou a consultoria jurídica da Casa a escolher, sem licitação, o instituto em detrimento das propostas de três universidades, entre elas a Brasília (UnB), onde muitos dos magistrados contratados pelo IDP também dão aula.

Há outros conflitos de interesses evidentes. O sistema de busca de processos no site do STF mostra que 35 professores do IDP, entre advogados, promotores e procuradores, têm ações em tramitação no Supremo. Ou seja, atuam como parte interessada em processos no tribunal atualmente dirigido por seu empregador.

O nome de um dos sócios de Mendes no instituto, Inocêncio Coelho, aparece 14 vezes na consulta ao site do tribunal.

Fonte: http://www.idelberavelar.com/

WP Theme & Icons by N.Design Studio
Entries RSS Comments RSS Login