Crônica: Um falso rio conta a história da cidade

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19/09/09 ImprimirImprimir TopoVoltar

Sérgio da Costa Franco (*)

Heródoto que me perdoe o plágio, mas Porto Alegre é uma dá¬diva do Guaíba, tanto quanto o Egito é um presente do Nilo. O povo o chama de “rio Guaíba” e ninguém anulará esse registro errado, mas os geógrafos concordam em que ele seja um lago.

Os rios Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí marcaram encontro no Paralelo 30, alimentaram um delta de ilhotas rasas e alagadiças e se abri¬ram mais adiante num lago bordado de verdes e suaves morros, que se comunica com a Lagoa dos Patos através do estreito de ltapuã. Pela Lagoa dos Patos, suas águas buscam o Oceano na barra do Rio Grande.

Seduzido pelo Guaíba, um governador esperto tirou de Viamão a sede do governo da Capitania, em 1773, para fixá-la no modes¬tíssimo Porto dos Casais, que é o germe de Porto Alegre. Graças a seu falso rio, a cidade estabeleceu suas ligações com o mundo, ge-rando marujos e mercadores, construindo barcos, importando e exportando. Em função dele e de sua bacia, Porto Alegre tornou-se entreposto de uma vasta região agrícola e industrial.

Inseparáveis

O geógrafo Balduíno Rambo escreveu em A Fisionomia do Rio Grande do Sul:
“Porto Alegre é inseparável do Guaíba; a ele deve a existên¬cia; dele lhe provêm as maiores catástrofes: este enlace de paz e de guerra determina a fisionomia de prazer e de luto, alternando sobre a paisagem do delta fluvial.”

O Guaíba, seu porto, suas ilhas, suas paisagens e seus barcos marcam terminantemente a sensibilidade e a memória dos porto¬alegrenses. Álvaro Moreyra, que deixou moço a cidade, lembrou-a assim numa de suas crônicas de saudade:

“Porto Alegre… Foi daquele porto que parti… Minha terra… É um céu tão azul que eu nunca mais vi um céu tão azul. E um rio chamado Guaiba, que tem uma ilha chamada Pintada. É uma casa grande. Minha terra… Aquela procissão de noite. O circo de Paulo Cirino. A estação da Estrada de ferro. O trem de São Leopoldo… As férias… O Riacho, os salgueiros… Os sinos… A banda de música da Floresta Aurora… Os dois va¬pores em que se ia para Pedras Brancas: o Cupi e o Pirajá…”

Vê-se que o Guaíba, por mais de um motivo, dominava as re¬cordações do poeta-cronista. E continua aderente ao imaginário do porto-alegrense, mesmo depois do advento da era rodoviária e da navegação aérea. Porque esteve e sempre estará presente na história da cidade e em seu cotidiano.

Durante a Revolução Farroupilha, Porto Alegre ficou sob sítio dos rebeldes perto de 4 anos, entre 1836 e 1840. Mas, graças ao Guaíba, o cerco nunca foi completo e a população podia receber alimentos, vindos de Rio Grande, em comboios de embarcações, ou vindos de São Leopoldo pelo Rio dos Sinos, em lanchões que burlavam a vigilância dos sitiantes.

Pelo Guaíba chegaram os imigrantes que mudaram a feição econômica e cultural da Encosta da Serra. E através de seus efluentes, fez-se a comunicação permanente com as fronteiras agrícolas. Numerosa frota de lanchas, canoas cobertas e navios movimentava o porto e abastecia o comércio.

Junto ao rio-lago, o povo criou sua maior festa religiosa, para Nossa Senhora dos Navegantes, a Iemanjá dos afrobrasileiros. Junto a ele e nele pratica esportes e lazeres de massa.

A cidade conquista o lago

Aproximar-se do lago, aproveitá-lo e lançar nele trapiches ou rampas de atracação foi alvo perseguido pelos porto-alegrenses desde os primeiros tempos da povoação. Não por acaso, a cidade progressivamente conquistou partes do leito do Guaíba, aterrando-o e implantando ruas novas, onde antes as águas dominavam soberanas.

Primeiro foi a Rua da Praia, hoje Andradas, a rua do litoral, desde o Largo da Quitanda (hoje Praça da Alfândega) até a Ponta das Pedras, na extremidade da Praia do Arsenal.

Depois, proprietários de prédios da Rua da Praia foram aterrando os fundos de suas casas, junto ao lago, a ponto de fazerem nascer uma nova rua, por isso chamada de “Nova da Praia”, que é hoje a Sete de Setembro.

Depois, durante decênios, alimentou-se o plano de outra via costeira, além da Sete de Setembro – a sempre projetada c falada Rua das Flores. Esta ganhou corpo, definitivamente, em função da construção do cais, a contar de 1921, quando se implantaram as atuais ruas Siqueira Campos, Capitão Montanha, Cassiano do Nascimento, Carlos Chagas, Chaves Barcelos, e ave¬nidas Sepúlveda, Mauá e Júlio de Castilhos.

Toda essa vasta área foi conquistada ao Guaíba, a título de construir-se o porto. E a Rua da Praia terminou sem praia e sem rio, conforme registrou o samba do Alberto do Canto.

Mais para o norte, a rua que fora implantada na “Costa do Rio”, primeiro como o “Caminho Novo” e depois como “Voluntá¬rios da Pátria”, também terminou virando rua interior. A constru¬ção do cais de Navegantes exigiu o aterro de grande superfície do leito do Guaíba, desfigurando inteiramente o bairro original. E, antes disso, entre a Voluntários e o lago, já tinha nascido, em fins do século 19, a Rua Triunfo, que é hoje a Comendador Manoel Pereira.

Do lado sul da península central, a vasta enseada da Praia de Belas, que tinha pouca profundidade e não consentia navegação, foi incorporada ao continente em outra maiúscula operação de aterramento. Peças importantes do equipamento urbano – a Câ¬mara Municipal, o Centro Administrativo do Estado, o Parque Marinha do Brasil, o Shopping Center Praia de Belas e o Estádio do Internacional -, estão edificadas sobre terrenos conquistados ao lago.

Amor e ódio/b]

Houve sempre uma relação de amor e ódio entre a cidade¬ e o Guaíba. A cidade o encheu de entulhos, de dejetos, de esgotos sem tratamento. Mas ele também se vingou dos agravos e dos esbulhos, submetendo Porto Alegre a destruidoras enchentes. Tan¬to que o sistema de proteção contra as cheias se revelou imperati¬vo após a grande enchente de 1941.

Um afluente especialmente travesso – Arroio Dilúvio ou Riachi¬irho -, que alagava frequentemente amplas áreas dos bairros Parte¬non, Santana, Azenha, Menino Deus e Cidade Baixa, também aca¬bou contido dentro de um canal, custodiado pelas pistas da Aveni¬da Ipiranga, numa respeitável operação de cirurgia urbana.

Até que a crescente poluição o desaconselhasse, os porto¬alegrenses sempre gozaram os favores de seu “rio”, banhando-se nele e praticando toda a sorte de lazeres aquáticos. Da Tristeza até Belém Novo, surgiu todo um cordão de aprazíveis balneários.
O remo foi dos primeiros esportes praticados na cidade, ainda no século 19, com a formação de vários clubes a ele dedicados. O iatismo e a vela tiveram e têm seguidores fiéis. Mais modernamente, a motonáutica e o windsurf também acharam vez.

Por isso tudo, sem ser cidade marítima, Porto Alegre arranja toques praianos. E em sua Ipanema provinciana, modesta imita¬ção da Ipanema carioca, também se exibem corpos bronzeados ao sol e garotas cheias de graça.

(*) Escritor, jornalista e historiador. Esta crônica foi extraí de seu livro “A Velha Porto Alegre”.

Fonte: www.jaymecopstein.com

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