quarta-feira, 11 de outubro de 2017

por Eduardo Guerini 

Um homem é uma coisa que se atira. Até que o ser humano emerja das ruínas do ser humano”(Heiner Muller, in: Safatle, V. A esquerda que não teme dizer o seu nome, 2012)
 

Em tempos imemoriais, os intelectuais inscreviam uma revolução silenciosa abrindo as portas da escola monástica-reservada aos futuros monges, para escola urbana, aberta a todos, sem exclusão dos estudantes que permaneceriam leigos, como dizia Jacques Le Goff (2006). Um caminho que construiu a história da humanidade, a revelação dos segredos enclausurados nos monastérios, trouxe consigo os homens de ofício que se transformaram em “mercadores de palavras” ou “mercadores de tempo”. Dizem que as ideias tem seu tempo para amadurecer e frutificar. Eis o legado que produziu mestres e estudantes universitários, e, por assim dizer, a lógica do magister.

Se no Ocidente o modo de ascensão era um desígnio do nascimento a morte, somente alcançavam o acesso ao poder os bem nascidos, os ricos, os sorteados. Nada se alterava no curso da vida. Porém, a Igreja cristã abriu a qualquer indivíduo o caminho das honras eclesiásticas, as dignidades que eram destinadas aos membros da nobreza. No local sagrado, enclausurado, abriram-se as portas da liberdade, da difusão dos saberes, e por assim dizer, da real ascensão social. O segredo da difusão de um sistema de real ascensão social. Sim, liberdade e conhecimento reconfiguraram a vida moderna.

A liberdade de cátedra, propensão à contestação rompeu todas as amarras do Antigo Regime. Nem a mais hierarquiza e poderosa instituição – a Igreja – conseguiu submeter ao seu sacrossanto poder aos desígnios do saber que se difundiu como imaginação criadora para além das fronteiras visíveis e invisíveis.

Na ponta da espada e no bico da pena, surge o progresso. Na documentação de importantes bibliografias, dados preciosos para história social, institucional e política. No domínio do cotidiano, uma antropologia dos costumes, dos métodos, dos instrumentos. No papel das universidades e dos universitários, na política, na grande política, os bibliógrafos, enciclopedistas, historiadores, filósofos, eruditos, doutos, clérigos e pensadores, definiam o surgimento de um padrão escolar, de um mestre das escolas. Foi um longo e tortuoso caminho iniciado por volta do século XIII.

A grande relevância do germe da modernidade, a liberdade de cátedra, postulada por Von Humboldt, propondo um modelo de universidade, no início do século XIX, estabelecia, a liberdade dos professores para defenderem suas ideias, a liberdade de escolher os tópicos de sua pesquisa, a estabilidade da cátedra, impedindo a perda do posto, caso atacasse os poderosos.

No momento atual, em pleno século XXI, um grupo de autoritários insanos pretende relegar o papel do mestre das escolas, dos intelectuais, dos artistas, a condição de novo herege. É a proposta dos adeptos da “Escola sem Partido”, um ataque daqueles sujeitos com crenças, naqueles que atacam todas as certezas das crenças, os dogmas. Por piedade da opressão que causam, querem que os intelectuais e mestres se estreitem nas ruminações silenciosas e obsequiosas, sem nenhuma doutrinação.

Estes senhores da certeza agem como se fosse Gregório IX, instalando os Tribunais do Santo Oficio, categorizando o conhecimento, riscando e rasgando livros, apagando as memórias, ou, na secura de sua ignominia, destilam a raiva, como arma contra os mestres que seguem o porvir da paixão pelo justo, atrás de um saber que tem sede de verdade, da crítica como arma em busca de um mundo melhor.

Não nos cumpliciamos aos rebeldes sem justeza, não entregamos a nossa alma como mercadores e traficantes de ocasião, esgrimamos contra as ideias profundas, num mundo profano, que não estigmatizam pessoas como pecadoras, lançando censuras inapeláveis.

O que se esconde por trás da história dos insanos que atacam a “liberdade de cátedra”, defensores da “Escola sem Partido”? O desejo de suprimir a “autonomia” que liberta toda a ilustração e história da humanidade, da gramática à poesia, da retórica à lógica, da matemática à física, da filosofia à ética. Professemos o encanto do múltiplo e todas as suas nuances.

Nesta homilia da mediocridade, os defensores da “Escola sem Partido” fazem o que todos os governantes desejam: destruir toda resistência, relegando aos mestres/professores a condição de mero capataz de indivíduos sem espirito, do espirito sem inquietação, da crítica sem razão.

Não basta a miséria existencial, pela violência em todos os sentidos, pela violência simbólica, desejam os detratores da escola e dos escolásticos tratar os profissionais versados no trivium e quatrivium, em sujeitos que esqueceram a grande síntese do patrimônio comum da humanidade orientado pelo conhecimento provindo da experiência sensível (ciência), da reflexão (filosofia) e da revelação. Eis a grandeza que sujeitos toscos desejam velar, ou seja, sepultar. Falta-lhes uma faculdade de sensibilidade, um internato na biblioteca da história universal, um conhecimento enciclopedista ilustrado, um bico de pena que saiba esgrimir sem vilipendiar até a morte aqueles que lhes deram voz, e, muitas vezes, a ascensão social. São hospedeiros oprimidos com discurso opressor, atacando justamente aqueles que lhes deram o principal – a liberdade!!

No desagravo contra a mediocridade espiritual, contra a rudeza material, que nossa luta cotidiana, nas escolas, nas universidades, ou simplesmente, na vida, siga o desejoso caminho ao inglório infinito, como escreveu Tobias Barreto (1971) “A vida é uma leitura/E quando a espada fulgura, quando se sente bater/ No peito heroica pancada/Deixa-se a folha dobrada/Enquanto se vai morrer”.

Afinal, a vida é magistral!!

Copiado de:  https://cangarubim.blogspot.com.br/2017/10/da-liberdade-de-catedra-inquisicao-do.html