Antídoto para o editorial indigente de ZH: artigo de José Luis Fiori sobre a política externa defendida pelo PSDB e pelas grandes empresas de comunicação do Brasil. Chama a atenção, diz Fiori, a pobreza das idéias e a mediocridade dos argumentos. De fato. Aliás, quem escreveu o editorial de hoje de ZH? Donald Rumsfeld?
O editorial desta quinta-feira de Zero Hora (jornal que, sempre é bom lembrar, nasceu e cresceu bajulando ditadores) exibe mais uma vez um festival de deformações e mentiras relativas à política externa brasileira. O assunto é, obviamente, Cuba. Assunto, aliás, da maioria dos editoriais dos cadernos de propaganda das grandes empresas de comunicação nesta quinta. Mais uma destas coincidências editoriais que, em 99,9% dos casos, atinge o governo Lula. Como de costume, o editorialista esforçou-se para reproduzir com precisão a ideologia do patrão. O ponto central é o seguinte:
Obediente a uma política externa orientada por afinidades ideológicas e pelo antiamericanismo, o presidente brasileiro começa a preocupar até mesmo governantes que o reconhecem como uma liderança sensata e democrática.
Três linhas, três mentiras.
1) A política externa brasileira não é orientada por afinidades ideológicas. A frase saiu de um panfleto do PSDB, saudoso do tempo em que o país tirava os sapatos para conversar com os EUA.O Brasil se relaciona com países de diversas posições ideológicas e sua balança comercial não está pautada por ideologia. Não é por outra razão que o governo brasileiro passou a ser convidado a integrar os principais fóruns de debate mundiais.
2) A política externa brasileira não é orientada pelo antiamericanismo. Quem reconheceu isso foi o próprio presidente dos EUA, Barack Obama, que, meses atrás, chamou o presidente brasileiro de “o cara”. É difícil dizer o que é maior nesta posição editorial de ZH: a mentira, a ignorância ou a má-fé.
3) O presidente brasileiro começa a preocupar até mesmo governantes que o reconhecem como uma liderança sensata e democrática? Quais governantes, cára pálida? O desejo ideológico dos grandes jornais brasileiros atinge o patamar do delírio ao crer que mais um de seus factóides preocupa os governantes do mundo.
A política externa do governo Lula, segundo o mesmo editorial, “flerta com ditadores e inimigos dos direitos humanos”. Quem são eles? Castro, Chávez, Kadafi e Ahmadinejad. A política externa do Brasil também “flerta” com os EUA e Israel, para citar dois exemplos na direção oposta, que, para os donos de ZH, não representam “inquestionável ameaça à paz mundial por sua obsessão no desenvolvimento de armas nucleares”. Estes países, segundo eles, “nem sempre agem com justiça e eventualmente também cometem abusos”.
A melhor resposta para esse festival de sandices e deformações foi dada pelo ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim:
“Se alguém está interessado em evolução política em Cuba, eu tenho a receita rápida: acabe com o embargo”.
O jornal ZH, sempre é bom lembrar também, tem todo o direito de ter a opinião que bem entender sobre a política externa brasileira ou qualquer outro assunto. Mas não tem nenhum direito em apresentar (deformadamente) posições contrárias às suas como “ideológicas” e as suas próprias opiniões como descrições da realidade. Isso é falsificação grosseira e inaceitável.


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