9 março 2010

A cobertura que a Folha de São Paulo fez nesta terça-feira em relação às atividades dos dois principais pré-candidatos à presidência do Brasil foi exemplar na distinção que acontecerá a partir de agora entre Dilma Rousseff, do PT, e José Serra, do PSDB. Essa distinção tende a ser feita pela quase totalidade da grande imprensa, defensora semi-declarada de Serra.

A manchete de capa, assim como a matéria principal, foi equilibrada, com críticas aos dois candidatos: “Na reta final, Serra e Dilma lançam até obra inacabada“. Estaria a Folha prestes a abandonar o barco da candidatura de Serra para pressionar o PSDB a encontrar uma saída viável para uma eleição que parece quase perdida? Pode ser. Ou não.

É nas outras matérias relacionadas aos dois candidatos que o tom que deve ser o predominante a partir de agora aparece. São três matérias diretamente relacionadas a Dilma, uma a Serra. As de Dilma são negativas, as três, enquanto a de Serra não pode ser considerada nem negativa nem positiva, apenas está ali. Os títulos não deixam dúvidas sobre esse posicionamento: “Site de apoio a Dilma está em nome de mulher, mas ela diz que é um ‘engano’”; “PT pagará salários para Dilma em campanha”; “Para defender candidata, Lula ataca imprensa” e “Tucano vê ansiedade para oficializar Serra”.

Agora vamos às matérias: o que dizem elas? O que elas não dizem?

A primeira exclusivamente sobre Dilma trata de um site criado por um grupo de mulheres amigas da candidata. É claro que o título é non-sense, simplesmente não se entende qual o problema de o site estar em nome “de mulher”, assim como não se entende quem diz que é um engano, a “mulher” ou Dilma. O que acontece é que o site está registrado no nome de uma funcionária de um ministério, o que fez a Folha pensar que ali estaria mais uma boa oportunidade para arrumar alguma denúncia, ou ao menos uma sombra de denúncia. Não chegou nem a sombra, pois a própria matéria se resolve explicando que a tal “mulher” era funcionária da empresa que fez o site, por isso o registro no nome dela. Uma matéria que não teria sentido algum, não fosse o sentido de denuncismo e o sentido de vincular desmedidamente o nome de Dilma a qualquer manchete negativa.

Na segunda matéria, a manchete é colocada de forma negativa, mas na verdade mais uma vez não há informações muito interessantes. Apenas o fato de que, mais uma vez, um candidato será pago pelo partido. Apesar do teor condenatório, não é nada ilegal, e não me parece imoral. O texto lembra que o próprio Lula também recebeu salário do PT quando foi candidato.

Na última matéria diretamente relacionada a Dilma, mais uma questão instigante: onde Lula defendeu Dilma? As falas citadas pela Folha nas quais o presidente critica a imprensa: “a imprensa brasileira não gosta de falar de obras inauguradas. Ou seja, coisa boa não interessa, o que interessa é desgraça”. A única matéria diretamente relacionada a José Serra é uma nota reproduzindo fala do presidente do PSDB-SP, que afirma que o partido não precisa ter pressa para anunciar a candidatura de Serra, pois ainda se pode recuperar o tempo perdido.

É preciso ficar de olhos bem abertos. Se durante períodos mais afastados da corrida eleitoral a manipulação de informações, a criação de informações e as distorções ficam mais claras, quanto mais aproximam-se as eleições mais esses recursos tendem a esconder-se. Mas eles continuam ali, sussurrando aos berros.

Postado por Alexandre Haubrich

Fonte:  http://jornalismob.wordpress.com/