A dominação do Frade Cipolla sobre os seus camponeses, ainda que eficaz à época, hoje pode parecer absolutamente ingênua. A naturalização do absurdo, na experiência singular de Cipolla, hoje já se dá de forma massiva, sobre as grandes massas de homens e mulheres, cujas fontes de informação estão situadas apenas nas mídias tradicionais. (Giovanni Boccaccio, criador do personagem, por Raffaello Sanzio Morghen, 1758-1833)

Tarso Genro

Com seu “Amor de Gigantes” (1989), o Professor Luis Alberto Warat publicou um primoroso ensaio sobre emancipação, democracia e política, de um ponto de vista não habitual na ciência política da academia. A saber, um enfoque a partir da formação da subjetividade humana, da cultura, do “desejo”, ensaio no qual – já nas primeiras linhas – ele faz uma constatação, cuja veracidade vai se firmando nos próximos quase trinta anos: “Há uma razão informatizada que tomou o lugar do amor para celebrar a emergência dos androides, as sombras do homem”. Na vida concreta, a técnica substitui o conceito, o impulso substitui o afeto, a mensagem midiatizada pelos oligopólios substitui os argumentos e a filosofia. Os fluxos da História – como mostrou o professor Castells – passam a ser um jato irracional, aparentemente sem ordem e sem sujeitos.

Como as pessoas dominam as outras, nas diferentes épocas? Gramsci, quase no final dos seus “Cadernos do Cárcere”, refere à Décima novela do “Decamerão”, para contar o seguinte: “Frade Cipolla promete mostrar a alguns camponeses pobres da Toscana uma pena do anjo Gabriel – na verdade uma pena de papagaio, uma ave linda ainda inteiramente desconhecida na região. Frade Cipolla, também vítima de uma trapaça, no lugar da pena encontra carvão, mas declara astutamente que esses pedaços de carvão foram os que assaram São Lourenço.”  No caso citado, o trapaceiro exerce a sua dominação através de uma simples mentira, que pode ser contestada com um argumento direto contra ele, ou através de uma outra mentira, “defensiva”, de quem foi logrado.

O fascismo da pós-modernidade exige a técnica substituindo o conceito, o impulso substituindo o afeto, a mensagem aparentemente pura de toda a ideologia – mas profundamente ideológica -, substituindo o argumento da razão, de tal forma que se dissolva a capacidade de “problematizar” o mundo (de filosofar). O fascismo da pós- modernidade não se origina somente dos ajustes e desajustes de classe, mas é um modo de derrotar uma civilização inteira, em conjunto com os resquícios revolucionários democráticos da razão sufocada. Por isso, este fascismo deve se tornar uma modo de vida “conscientemente orientado”, para substituir o homem real pelo homem utópico e perfeito, composto, não pelo amor desejante (que em termos sociais significa solidariedade humana), mas seja composto pelo que lhe fornece o mercado, engendrado para uma nova etapa de acumulação.

A dominação do Frade Cipolla sobre os seus camponeses, ainda que eficaz à época, hoje pode parecer absolutamente ingênua. A naturalização do absurdo, na experiência singular de Cipolla, hoje já se dá de forma massiva, sobre as grandes massas de homens e mulheres, cujas fontes de informação estão situadas apenas nas mídias tradicionais, que tanto controlam o pensamento, pela forma cientificamente planejada com que dão uma informação, como pela forma dirigida com que não informam ou não se manifestam, sobre determinados fatos. Um jornalista pede o assassinato de um ex-presidente e um ministro do Supremo solidariza-se – ainda que de forma contida – com uma manifestação de racismo explícito e a indignação da sociedade, como conjunto, fica próxima de zero.

As condições para um fascismo de novo tipo estão dadas e ele não será nem melhor, nem pior do que o outro, se vier. Mas levará a uma brutal selvageria política, a partir do Estado, que será máximo – para reprimir e matar – mas mínimo, para atacar a corrupção, que certamente será  monopolizada, desta feita, diretamente pelos técnicos condutores do Estado Mínimo. Suas condições de exercício do poder total – pelos meios repressivos do Estado e pelo controle da opinião pública – espantariam até o Frade Cipolla, como dominador singular, representativo de toda uma época de trevas da Idade Média, que lança os seus tentáculos sobre a modernidade decadente.

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Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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