Adão Villaverde (*)

Convidado de honra de credenciadas entidades portuguesas recebi o chamamento para lançar, nas cidades de Lisboa e Coimbra, a publicação “Resistência, Utopia e Construção da Hegemonia” e apresentar o capítulo 3 do livro “É Golpe, Sim!”, que aborda especificamente a “Crítica ao Entreguismo e ao Modelo Tecnologicamente Dependente”.

Como professor, deputado e testemunha desta era que nos foi dado viver, sinto-me, de certa maneira, compensado pela repercussão da narrativa que atrai interesses na Europa, agora em Portugal, como já ocorreu na França e na Espanha. Comprova-se, assim, que o conteúdo do nosso registro não resultou em uma caracterização gratuita, para consumo interno partidário.

Mas, acima da recompensa ao esforço pessoal, está a importância da dimensão que esta exposição alcançará através da reverberação acadêmica do seminário “Brasil: a questão democrática e a soberania”, programado para o dia 4 de abril em Lisboa e dia 5 em Coimbra, com o objetivo “dar ciência aos graves retrocessos ocorridos com o Estado Democrático de Direito em solo brasileiro”.

No convite assinado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Lisboa, pelo Coletivo Andorinha e pela Associação Pró Vítimas, estes organizadores do seminário lembram que “vários movimentos sociais denunciam o ataque à democracia no Brasil”. O comitê organizador frisa: “A presença do deputado Adão Villaverde, com sua reconhecida trajetória e larga experiência, certamente vai contribuir para elucidar os participantes deste evento”. E consideram a participação deste parlamentar gaúcho como de “grande interesse para portugueses e para os brasileiros residentes em Portugal”.

No livro “É Golpe, Sim! – Terceiro turno sem urnas, o ataque aos direitos sociais e o entreguismo”, elaborado em meados de 2016, enfatizávamos o caráter essencialmente golpista do impeachment de Dilma Rousseff que, naquela época, era contestado com a falácia difundida, junto à opinião publicada, pela aliança oposicionista parlamentar, empresarial e judicial, e sobretudo midiática, que condenava a presidenta legitima pelos supostos equívocos enlaçados em certo “conjunto da obra’, do pecado das pedaladas fiscais à invocadas irregularidades em suplementações orçamentárias. Sem crime algum de responsabilidade, portanto.

Contra a versão de falsa legalidade das classes dominantes, era imprescindível afirmar e reafirmar que houve um golpe. O livro foi uma denúncia desta brutalidade, mas também oferecia subsídios para a necessária reflexão para o enfrentamento da situação de ilegitimidade e exceção que passamos a viver.

Na realidade, foi um golpe sem armas, prática já usada na América Latina por evidente inspiração externa e que foi articulado no país por essa aliança de forças conservadoras e as elites da Casa Grande.

Não tínhamos dúvida que o golpe foi contra Dilma, o PT, a esquerda, o resultado das urnas, a democracia e os projetos sociais que vinham mudando o país e visava, ao final, eliminar Lula politicamente, impedindo sua reeleição. Evidentemente só assim, sem a legitimidade do voto, a direita e o conservadorismo imaginavam construir um atalho para o poder.

Nosso livro serviu, desde o início, como um registro histórico obrigatório acerca do atentado ao Estado Democrático de Direito e a violação da Carta Magna do país que consubstanciaram a usurpação do poder por um interino ilegítimo, cercado de asseclas investigados por corrupção.

Mas é, entretanto, o seu terceiro capítulo, com a condenação do entreguismo, que tem obtido maior repercussão fora do país, origem dos mercados internacionais que globalizam o neoliberalismo.

O capitulo investe em ressaltar os danos da dependência tecnológica do país (notabilizada principalmente com a extinção do Ministério de Ciência e Tecnologia) como uma evidência da lógica de diminuição da soberania e da entrega da exploração de nossas enormes riquezas naturais, como a Amazônia e o pré- sal, aos exploradores transnacionais.

Já “Resistência, Utopia e Construção da Hegemonia”, lançada na Feira do Livro de Porto Alegre no final do ano passado, é uma publicação composta por um texto principal que desenvolve a ideia do título e mais 15 artigos nossos publicados em jornais no final de 2016 e ao longo de 2017 e que fazem uma reflexão sobre os acontecimentos da era neoliberal que se seguiu ao golpe contra a democracia, e repercute nas políticas aplicadas no Rio Grande do Sul e em sua capital, Porto Alegre.

Na contracapa, o sociólogo gaúcho Rodrigo Azevedo instiga uma definição essencial: “Seguir adiante passa por nos amarrarmos aos mastros da institucionalidade democrática, pela recomposição dos espaços de participação popular e pela revalorização da política parlamentar feita com ética e com compromisso com os de baixo. Esta é a trajetória, e este o compromisso do Deputado Adão Villaverde, que nos brinda aqui com importantes reflexões sobre a conjuntura e os desafios para o novo período que se abre, no Brasil e no mundo”.

No prefácio o professor José Vicente Tavares propõe uma ponderação elogiosa, que me honra muito : “A lição de Adão Villaverde, retomando os clássicos da ação histórica, é nos estimular a exercitar a Política e a pensar a Política. Nesse passo, readquirimos nossa capacidade coletiva de imaginar um futuro de solidariedade, de respeito à diferença e de busca da equidade para as novas gerações de brasileiros e de brasileiras. Adão Villaverde nos convida ao trabalho, árduo e necessário, de “reinventar nossos sonhos de História e de Humanidade”.

Sim, não podemos jamais desistir das utopias que nos fazem avançar, apesar dos obstáculos e dos tropeços na nossa jornada contra o ódio, a barbárie e o fascismo.

(*) Professor, engenheiro, deputado estadual (PT/RS)

Copiado de:  https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2018/03/narrativa-sobre-o-golpe-de-2016-a-dependencia-tecnologica-e-o-entreguismo-atraem-interesse-europeu-por-adao-villaverde/