O Lula-lá cada vez menos cá

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24/10/09

Carlos Brickmann


A população está sujeita à Lei do Cão, e não à lei da nação, a Justiça não tem como agir.

Lembra-se dele? É um senhor sorridente, levemente acima do peso, estatura pouco abaixo da média, barba bem aparada, muito simpático, muitas vezes de gravata vermelha, que costumava ser visto em Brasília com alguma frequência. Esta frequência está cada vez menor: neste ano, ele passou 135 dias longe de Brasília – quase metade dos 293 dias já transcorridos em 2009. Tem bom-gosto, além de muita popularidade: do tempo que passou fora, ficou no Exterior 67 dias, compensando os outros 68 de viagens pelo país, que incluíram as escaldantes margens do rio São Francisco. Como ninguém é de ferro, Sua Excelência teve, mesmo no sertão semi-árido, tapete vermelho, bons alojamentos com ar condicionado e comida vinda de um restaurante francês. Buchada de bode, jamais! Isso é coisa de Fernando Henrique, que até em jegue montou para ganhar eleições.

Este simpático senhor, cujo mandato está chegando ao fim, costuma fazer-se acompanhar por sua candidata à sucessão, a gerente do PAC que pouco fica onde o PAC é gerenciado, a capital da República. A gerente do PAC, ou mãe do PAC, conforme a denomina seu líder, também viaja sem ele. Ser candidata é difícil: até pontapé inicial em jogo de futebol a convidaram a dar (recusou), justo ela que, embora gaúcha, só agora está aprendendo qual a diferença entre Grêmio e Internacional e tentando decorar qual é o colorado, qual é o tricolor.

O presidente fora, sua principal ministra fora. E o Brasil? O Brasil, já se diz faz tempo, cresce enquanto o Governo dorme. E também enquanto viaja.

A lei, ora a lei

A legislação eleitoral proíbe campanha antecipada; mas Dilma Rousseff e Ciro Gomes acompanharam o presidente Lula em sua “inspeção às obras de transposição do rio São Francisco”. Na opinião do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, “nem a pessoa mais ingênua acredita que se trate de fiscalização de obras”. Na viagem houve até sorteio de casas. Mas as perspectivas de que aconteça algo são mínimas: o governador paulista José Serra, virtual candidato do PSDB à Presidência, também andou viajando por aí (embora menos que Dilma) e estatais de âmbito estadual fizeram anúncios em rede nacional de TV, o que só teria sentido como parte, embora ilegal, de campanha. Se a Justiça Eleitoral for rígida, não sobra candidato. Mas normalmente não é.

Só esses?

Por falar em Justiça Eleitoral, a cassação do mandato de 13 vereadores paulistanos por recebimento de doações ilegais de campanha merece um comentário: só eles? A Associação Imobiliária Brasileira, que fez as doações, beneficiou muitos outros candidatos, inclusive alguns que tentam se apresentar como expoentes da moralidade pública, e políticos que hoje ocupam cargos executivos. Se é ilegal para alguns, será legal para outros? Em tempo: a cassação do mandato não se efetivará ainda. O julgamento ocorreu em primeira instância e cabe recurso.

Brasil, um país só deles

Imagine que tropas paraguaias invadam o Brasil e assumam o controle de Ponta Porã. Haverá um clamor nacional para que o Brasil recupere o território que lhe foi tomado, e o país não descansará enquanto as fronteiras não voltarem ao local correto. Mas narcotraficantes assumiram o controle de parte do território brasileiro, na cidade mais simbólica do país, o Rio de Janeiro, e tudo fica por isso mesmo. A Polícia só consegue entrar em seu território em operações de guerra, a população está sujeita à Lei do Cão, e não à lei da nação, a Justiça não tem como agir. E a ação não pode ficar entregue exclusivamente à Polícia do Rio: exige a entrada de forças federais, já que a cocaína, os armamentos, a munição, tudo vem de fora, cruzando as fronteiras mal vigiadas. Chegou a hora de agir – até para quebrar a audácia dos bandidos que lutam entre si ignorando o Estado.

Sem fantasia

O episódio das cuecas vermelhas que o senador Eduardo Suplicy, do PT paulista, vestiu sobre o terno, encerra-se com dois graves equívocos:

1 – Como a cena não foi levada ao ar pelo Pânico na TV, o corregedor Romeu Tuma desistiu da idéia de investigar a quebra de decoro parlamentar. É um erro: a quebra de decoro, se houvesse, não se configuraria pela exibição na TV da cena ridícula, mas pelo fato em si, com o desfile de Suplicy pelo prédio do Senado;

2 – A própria idéia de que caberia uma ação por quebra do decoro parlamentar. Numa Casa em que houve atos secretos, numa Casa em que havia um quarto clandestino sabe-se lá para que fins, numa Casa que pagou salários a um monte de gente que nem no Brasil morava, andar de cueca vermelha por cima do terno não é quebra nenhuma de decoro. É ridículo, ponto. Simples assim.

Macho men

A explicação do senador, de que atendeu ao pedido da humorista Sabrina Sato porque ela é muito bonita, é um retrato do Senado. Quando Sylvia Kristel, a atriz holandesa que ficou famosa com a série Emmanuelle, visitou o Senado, era constrangedora a babação de Suas Excelências diante da moça bonita. Citando Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, os parlamentares pensam que são gostosos, e as moças mais espertas os vêem como são: apenas gastosos.

Fonte: www.jaymecopstein.com.br

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