O Muro da Mauá

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15/11/09

Jayme Copstein

O porto-alegrense menos avisado tem relação confusa com o Muro da Mauá, nascida de equívoco: não foi idealizado pelo regime militar, como muitos supõem, mas obra concluída durante aquele período. Para alívio, pois, dos que sofrem de preguiça mental e são subservientes a modelos ideológicos, ele é politicamente correto.

O projeto é bem anterior, ainda do tempo do Estado Novo, elaborado logo após as cheias de 1941 que praticamente devastaram o centro da cidade. As obras começaram um pouco depois e se arrastaram por quase 30 anos por sua dimensão. A última inundação aconteceu em 1963 e teve proporções menores porque a execução do projeto já estava em andamento e evitou o pior. De 1964 para cá, sabe-se com certeza que, pelo menos em três ocasiões, o Guaíba ameaçou repetir a catástrofe.

Ninguém parece levar em conta, também, que o Muro da Mauá é apenas um dos elementos do complexo sistema de prevenção de cheias, que implicou retificação do curso de rios afluentes e correção da margem do estuário, da que vai até Navegantes, onde foi construído o chamado novo cais.

A campanha pela demolição do muro, que recrudesce de tempos em tempos, faz-se também com base em suposta relação amorosa do porto-alegrense com o Guaíba.

Afora a imundície jogada diariamente pela população que lhe tirou a própria baneabilidade não autoriza falar de amor, aquele trecho da cidade jamais foi área turística. Resultou de aterros sucessivos, até chegar a paisagem atual no início do século 20 quando foi construído o porto. Antes, as águas chegavam até onde hoje é a Praça da Alfândega, daí o nome de Rua da Praia porque era praia mesmo.

Inicialmente os armazéns do porto, depois os grandes edifícios ao longo da Avenida Mauá, esconderam a paisagem daquele trecho do estuário. Os próprios barcos de turismo sempre tiveram ancoradouro mais ao norte, da mesma maneira que ali havia uma feira livre permanente, conhecida como doca das frutas.

Não há, portanto, nenhum fundamento na cruzada para demolir o Muro da Mauá. O que há de verdadeiro é que ele é feio porque jamais sofreu obras de embelezamento que em nada o prejudicariam. Aí entrou de novo a parvoíce ideológica: o projeto de urbanização da área ficou inconcluso quando a Câmara Municipal vetou a construção de uma elevada sobre toda a extensão do Muro porque o nome proposto para ela era Marechal Arthur da Costa e Silva.

Foi uma pena. Denominações de logradouros públicos podem ser mudadas a qualquer momento, é um procedimento simples. O público, isso sim, perdeu a vasta área de lazer que poderia ser criada a partir da Praça da Alfândega, como o projeto previa.

Ao longo do tempo outras sugestões foram oferecidas. Artistas plásticos, por exemplo, pretenderam fazer ali uma galeria permanente de pintura, isso sim, uma bela atração para turistas. Nenhuma das sugestões prosperou porque nunca se encontrou o financiamento necessário. Bastaria, até hoje, fração da dinheirama necessária para demolir o muro.

Fonte: www.jaymecopstein.com.br

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