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O retorno do reprimido

13abr19

A ultima Piauí (151) dá conta que a Editora Todavia está lançando no Brasil o livro Tumulto, de Hans Magnus Enzensberger. Já comentei o livro aqui no blogue, em janeiro de 2018, e disse que voltaria a falar nele, mas me faltou o ânimo. Quem sabe agora a gente se anima a falar um pouco mais sobre o clima meiaoito, um dos temas de Tumulto. 1968 é um ano que parece não terminar, e evidências disso são coisas como as polêmicas sobre Paulo Freire que tem aparecido nos jornais desde o começo desse ano. Os uns e os outros se recusam a olhar para a nossa história dos 1960 e preferem falar de coisas vagas, com pouca vontade da verdade.

Como se sabe, o principal livro de Paulo Freire foi escrito entre 1967 e 1968 e tem tudo a ver com o clima meiaoito. Entre as muitas evidências dessa atmosfera é a presença no livro da retórica do “homem novo”. O humor ferino de Enzensberger lembra dessas retóricas e pode ajudar a um retorno terapêutico a esses temas. Não vai ser fácil.  As polêmicas sobre Paulo Freire não dão bola para os fatos. O que há é a defesa irrestrita, de um lado, e a condenação irrecorrível de outro. Os uns recitam o reconhecimento que PF teve no mundo, a posição invejável dele nas citações acadêmicas; os outros dizem que ele era um marxista doutrinador. Ninguém parece estar interessado em fatos e verdades e sim em convencer já convertidos, com argumentos de autoridade e meias-verdades.

O que me parece é que os uns e os outros tem medo de Paulo Freire. Quando escrevi Quando ninguém educa – questionando Paulo Freire (Editora Contexto, São Paulo, 2017) eu queria apenas compreender melhor o que vem acontecendo na pedagogia brasileira. Meu encontro com Paulo Freire não foi planejado. Eu tratei da obra dele pois não havia como reconstituir o panorama educacional dos anos 1970 sem ele. Descobri, ao me aprofundar no estudo dele, um fato constrangedor: não há, até hoje, uma biografia de Paulo Freire à altura de sua polêmica fama. Ana Maria Freire fez um livro com documentos e informações preciosas, mas não é uma biografia; as demais trazem informações superficiais. Elas insistem, por exemplo, que no curso de alfabetização em Angicos, RN, 300 pessoas foram alfabetizadas.  Essa afirmação também consta no portal do MEC. Ora bem, o curso de Angicos concluiu com 135 alunos considerados alfabetizados, em um total de 150, entre eles mulheres e crianças. Entre os 299 matriculados apenas 38 eram agricultores, como descrevem Calazans Fernandes e Antonia Terra em 40 horas de Esperança, de 1994. Apesar da abundância de detalhes que o livro traz, segue a lenda dos “300 cortadores de cana” alfabetizados em Angicos.

Freire chegou à primeira fase de seu prestígio citando autores contrários ao marxismo, como é evidente nos dois primeiros livros, Educação e Atualidade Brasileira (1959) e Educação como Prática da Liberdade (1965). Nesses livros não há citações marxistas. Há, sim, autores que se opunham ao marxismo, como Alceu Amoroso Lima, Zevedei Barbu, Guerreiro Ramos, Peter Drucker, Karl Popper e outros. O tema dominante nesse período é a democracia no Brasil. Para se ter uma ideia da obsessão de Freire com o tema, vale lembrar que a palavra “democracia” é usada 276 vezes em seu primeiro livro, 109 vezes no segundo e apenas uma vez na Pedagogia do Oprimido! Na medida em que ele aderiu ao marxismo, o tema foi abandonado. Quando, como, por que isso aconteceu? Os estudiosos de Paulo Freire dão as costas para esse tipo de discussão. A que custo?

O reconhecimento de “doutrinação” nos movimentos de alfabetização da época nunca foi problema para os estudos freirianos sérios como os de  Rui Beisiegel e Vanilda Paiva. O primeiro escreveu que “a cartilha do Movimento de Cultura Popular do Recife não era só um instrumento de doutrinação. Era muito mais do que isso. Mas, inegavelmente, era também isso.” Vanilda Paiva, em Paulo Freire e o nacionalismo-desenvolvimentista caracterizou claramente a diretividade do método freiriano: “Assim, já sabíamos o que iríamos explorar nas aulas, quisessem os alunos ou não. A democracia era sempre apresentada como o ideal e a ela se chegava através do voto”.  Essa “doutrinação” freiriana, no entanto, nada tinha a ver, na fase inicial (até 1963) com o referencial marxista. Era evidente, por outro lado, o compromisso com o nacionalismo e as reformas de base.

Se a fama de Paulo Freire está ligada ao movimento de alfabetização dos anos 1960 no nordeste, ela não está ligada ao ideário marxista. Ela tampouco está ligada às lutas anticoloniais, pois isto apenas começou a surgir em sua obra na segunda metade dos anos 1960. Abre-se assim uma zona de sombras na biografia dele. Como ocorreu a adesão ao marxismo, como ele se converteu ao maoísmo? Quando eu disse que não há uma biografia adequada de Paulo Freire, é porque episódios como esses nunca foram abordados para além de poucas linhas, como fez Rui Beisiegel, que insiste que essa aproximação foi “cautelosa”, pois não estava em “contradição com as anteriores afirmações”. Como assim? Paulo Freire substituiu as 276 vezes em que se refere positivamente à democracia no primeiro livro por uma única menção, negativa, na Pedagogia do Oprimido, onde usa quase 200 a palavra “revolução” em sua acepção marxista.

Paulo Freire era marxista? Até a primeira metade dos anos 1960, a resposta é claramente não; e foi nessa fase que ele ficou famoso no Brasil. Na sua segunda fase de fama, depois da Pedagogia, é evidente que sim. Lembrar essas coisas, no entanto, é um tumulto, pois aqui surgem outros temas que, ao que parece, causam medo a uns e outros, em especial esse: o populismo pedagógico (seja de esquerda, como o “ninguém educa ninguém”, seja o de direita, a “escola sem partido”), é um desserviço à educação. Esses e outros temas continuarão a retornar se continuarem assim, reprimidos.

Depois de um ano sem escrever nesse blog, meus dezesseis leitores praticamente sumiram. Peço desculpas pelo meu sumiço. Vou tentar me animar de novo.

Copiado de:   https://ronairocha.wordpress.com/2019/04/13/o-retorno-do-reprimido/

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  1. Cet article est super ! Bravo 🙂

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