Mar 10th, 2010

by Marco Aurélio Weissheimer.

Começo pelo começo, repetindo o título: O Rio Grande do Sul está vivendo um período de trevas. Pelo andar da carroça, corro o risco de sofrer um processo por fazer tal afirmação e associá-la a um grupo de pessoas que atualmente dirige o Estado e algumas instituições da sociedade. Mas vamos lá. É dizer ou calar.

O jornalista Felipe Vieira, da Rede Bandeirantes, está processando o jornalista Marcelo Träsel, professor e coordenador da especialização e Jornalismo Digital da Famecos/PUC. A queixa-crime contra Träsel é assinada por Norberto Flach, que também é advogado de Walna Vilarins Meneses, ex-assessora direta da governadora Yeda Crusius, e indiciada dia 18 de agosto de 2009 pela Polícia Federal pelos crimes de corrupção passiva e formação de quadrilha, em um inquérito resultante da Operação Solidária, que investiga fraudes em licitações no Rio Grande do Sul. Um caso não tem nada a ver com o outro, mas ambos estão relacionados ao mesmo contexto político que caracteriza atualmente o Estado. Vamos a ele (o caso e o contexto).

Segundo a queixa-crime, datada de 27 de outubro de 2009, Träsel teria cometido os crimes de injúria e difamação contra Felipe Vieira, por comentários postados em seu blog relativos a um texto publicado no site Nova Corja sobre o suposto envolvimento de jornalistas gaúchos no escândalo do Detran. Entre as afirmações de Träsel consideradas injuriosas e difamatórias por Felipe Vieira está a seguinte: “jornalista processar jornalista é coisa de maricas”…Seria um exemplo de “abuso da liberdade de expressão”.

Há um contexto mais amplo que cerca esses processos contra jornalistas e blogueiros. Uma boa parte desses processos está relacionada às denúncias sobre o desvio de mais de R$ 40 milhões do Detran gaúcho e a uma denúncia particular feita pelo Ministério Público Federal sobre o envolvimento de jornalistas no esquema. A existência de um braço midiático da fraude aparece na página 56 da denúncia que o MP Federal encaminhou á Justiça Federal:

“Os denunciados integrantes da quadrilha não descuidavam da imagem dos grupos familiares e empresariais, bem assim da vinculação com a imprensa. O grupo investia não apenas na imagem de seus integrantes, mas também na própria formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses, ou seja, aos projetos que objetivavam desenvolver. A busca de proximidade com jornais estaduais, aportes financeiros destinados a controlar jornais de interesse regional, freqüentes contratações de agências de publicidade e mesmo a formação de empresas destinadas à publicidade são comportamentos periféricos adotados pela quadrilha para enuviar a opinião pública, dificultar o controle social e lhes conferir aparente imagem de lisura e idoneidade”.

Até agora, não surgiu nenhuma prova que apontasse o nome de jornalistas envolvidos neste esquema. A imprensa gaúcha, aliás, mantém até hoje o famoso “ruidoso silêncio sobre o tema”. Silêncio que acabou lançando um véu de suspeita generalizado sobre a categoria. Mas parece que ninguém se importa muito com isso. Os jornalistas que hoje processam jornalistas e blogueiros tampouco manifestaram grande interesse pelo assunto. Da mesma forma o fizeram em relação a outros problemas que jornalistas tiveram no governo Yeda Crusius: proibição de entrar no Palácio Piratini (como ocorreu com o jornalista Graciliano Rocha, da Folha de São Paulo), proibição de registrar imagens de ações da Brigada Militar, entrevistas coletivas dirigidas, seleção de jornalistas simpáticos ao governo na hora de entrevistas, uso de identidades falsas de jornalistas por espiões infiltrados em atos públicos, processos de jornalistas contra jornalistas, sites e blogs por crime de opinião, processos contra sindicalistas por crime de opinião, assassinato de militante sem-terra, para citar alguns casos.

Toda pessoa tem o direito de recorrer à Justiça caso se sinta lesada ou agredida. Do mesmo modo, toda pessoa tem o direito de opinião e o dever de fazer algumas escolhas na vida. Há quem ache, por exemplo, que a coisa mais importante na vida é ganhar dinheiro e angariar prestígio pessoal. Na minha opinião, trata-se de uma escolha medíocre e repulsiva. Mas é só a minha opinião, é claro.

Quero expressar aqui minha solidariedade ao Marcelo Träsel. O Rio Grande do Sul vive um período de trevas. Várias coisas estão sendo difamadas e injuriadas. Entre elas, a inteligência, o direito à opinião, a liberdade de expressão e de manifestação.

Fonte:  http://rsurgente.opsblog.org/