Porto Alegre, cidade (nem tão) criativa

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Sep 10th, 2009

by Marco Aurélio Weissheimer.

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Por Thiago de Moraes e Leonardo Guarnieri

Porto Alegre sedia, de 9 a 11 de setembro, o Seminário Internacional Porto Alegre – Cidade Criativa, uma realização do Santander Cultural e da Secretaria Municipal da Cultura. A proposta do evento é criar um espaço de discussão de questões culturais relativas à cidade de Porto Alegre em diversas áreas, como as artes visuais, o design, a economia, o cinema e a mídia. O evento, com o apoio do Ministério da Cultura e em parceria com instituições como a Unesco, a Procempa e o Centro Cultural da Espanha, conta com convidados internacionais como Lluís Bonet, Pepe Ferrándiz e Ramon Parramon, e tinha tudo pra dar certo. Falhou miseravelmente. Ao menos no primeiro dia.

O segundo “seminário” do evento, “Encontrando Vocações – Do Passado ao Contemporâneo, a História Econômica de Porto Alegre”, teve início pouco depois das 19h30min do dia 9, e se propunha a trabalhar com as singularidades históricas da cidade, suas relações com a cultura e as possibilidades de projeção do futuro a partir destas idéias. Os palestrantes convidados foram Luiz Fernando Cirne Lima e Cristiano Tatsch.

O primeiro da noite a falar foi Luiz Fernando Cirne Lima. Sua proposta era comentar a respeito da história de Porto Alegre, enfatizando os aspectos econômicos. Ao iniciar sua exposição, Luiz apresentou-se e referenciou brevemente sua formação: agrônomo. Qual a razão para a escolha de um agrônomo como palestrante em um pretenso seminário sobre a história econômica de Porto Alegre, em vez de um historiador especialista na área, com real autoridade para estabelecer uma discussão qualificada sobre o assunto? Ou mesmo algum profissional de outra área, seja ela sociologia, economia, que ao menos tivesse alguma relação com o debate dos temas propostos? E ainda fizeram o favor de escolher alguém que foi Ministro da Agricultura do governo de Emílio Garrastazu Médici de 1969 a 1973, em plena ditadura civil-militar após o AI-5. A noite começou boa. A partir daí, uma série de pérolas surreais proferidas pelos palestrantes revelou o teor do “evento cultural” que ocorreu.

Cirne Lima prosseguiu com uma série de dados sobre a fundação de Porto Alegre e seu desenvolvimento, em uma exposição cheia de datas e números sem muita relevância, a não ser a demonstração de uma pretensa erudição. Além de uma série de anedotas sobre a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial e a campanha de nacionalização do Estado Novo de Vargas, que supostamente analisavam a contribuição germânica no desenvolvimento da cidade, mostrando nenhuma consistência e mesmo pouco conhecimento histórico.

Algumas fotos da cidade depois, o palestrante comentou a respeito da história dos bancos na capital, o que, considerando o título do seminário, dá a entender que uma linha de tempo mostrando a criação de bancos pode ser qualificada como uma “análise de história econômica”, segundo o conceito dos organizadores do evento. O ponto alto da exposição foi quando ele disse que os bancos são incompatíveis com as regras do Estado. Portanto, bancos privados são preferíveis a estatais. Chocante. Usando um evento pretensamente cultural, que, teoricamente, busca estabelecer um debate sobre a cidade, um pseudo-historiador despeja sua bagagem neoliberal, vociferando que bancos estatais são uma contradição em si mesmos.

Como se não bastasse, no slide que o palestrante mostrava no telão com uma cronologia dos bancos de Porto Alegre não havia nenhuma menção ao Banrisul, e o banco Santander aparecia como último na lista, como se fosse o apogeu de uma espécie de evolução bancária. Luiz, aliás, não poupou elogios ao banco Santander, lembrando mais uma vez, realizador do evento. Observem a sutileza com que o palestrante nos brinda com uma declaração de amor ao capital privado, praticamente uma ode à privatização.

Precisa dizer mais? Sim, infelizmente.

O segundo palestrante foi Cristiano Tatsch, Secretário Municipal da Fazenda. Ele propôs-se a fazer…um balanço econômico do período de governo do Fogaça. Em um evento de debate sobre questões culturais, especificamente as relações entre a economia e a cultura, com tantas pessoas aptas e suficientemente críticas para fazerem uma boa fala levantando questões gerais para debate (lembremos que há um curso de especialização em Economia da Cultura na UFRGS, como o próprio palestrante mencionou), o Secretário Municipal da Fazenda seria a última pessoa a se pensar. Além disso, propaganda governamental tem limite. A fala foi de fato um balanço econômico do governo Fogaça, com uma série de slides “demonstrando” como este período foi “positivo”.

Houve dois pontos altos nesta fala. O primeiro foi quando o secretário teve a cara dura de pôr no slide – e ainda por cima comentar – que as únicas deficiências da cidade de Porto Alegre eram em relação ao aeroporto, à telefonia e à internet, seguidas de reticências muito sugestivas. Brincar com a inteligência alheia deveria ser crime. O outro ponto de destaque foi a sutileza do secretário ao comentar como, em diversas grandes cidades ao redor do mundo, via sempre “belas construções próximas às águas”. Observem, novamente, a sutileza. O secretário apóia as construções na orla do Guaíba e o diz com flores, com eufemismos. Logo depois, teve o disparate de dizer que José Antônio Lutzenberger apoiaria as construções na orla.

Em seguida, foi aberto um espaço para os comentários dos convidados espanhóis. Os três falaram pouco, com um ou outro apontamento interessante, ou pergunta para o secretário, como foi o caso de um deles. A participação dos comentaristas (deve-se lembrar, trazidos da Espanha para o evento), pasmem, termina por aí, após cerca de cinco minutos de comentários. O secretário respondeu a pergunta e foi aberto o espaço para “debate”.

Na verdade, tal “debate” se constituiu de pouquíssimas perguntas para os palestrantes anotadas em um papel lido pela mediadora. Uma delas se referia a um slide da apresentação do secretário a respeito dos principais eventos de Porto Alegre, no qual ele destacava a Feira do Livro e o Acampamento Farroupilha. Entretanto, o questionamento se referiu à omissão, neste mesmo slide, do Fórum Social Mundial como um evento cultural de relevância para a cidade. Ora, todos sabem que foi o governo do Fogaça que afastou o Fórum. Em um evento que se pretende seminário, que se pretende fomentador do debate, não deveria existir este tipo de omissão, que é de cunho evidentemente político. Foi a própria mediadora quem respondeu, argumentando que Porto Alegre possui uma série de grandes eventos, e que em decorrência do tempo não caberia citar cada um deles.

Já o último questionamento fechou a noite com chave de ouro. Pediram para que o secretário comentasse um pouco a respeito do FUMPROARTE (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre), já que o assunto era a relação entre economia e cultura. A mediadora perguntou se ele gostaria de falar um pouco sobre o assunto, e o secretário recusou-se a falar.

Dignas de nota também foram as mediações de Ana Carla Fonseca, que é curadora do evento, economista e consultora internacional para economia criativa (?). Foram muitas metáforas para uma só noite. Expressões como “caldinho cultural explosivo” (é, ela quis dizer cadinho) e alguma referência à produção cultural por “combustão espontânea”. Poderia jurar que ouvi isso. Pirotecnias e firulas à parte, que ao menos foram divertidas, os comentários foram desnecessários.

O maior problema disso tudo é o fato de um evento destes ter o apoio do Ministério da Cultura e da Prefeitura Municipal. Provavelmente o evento recebeu algum tipo de financiamento com dinheiro público para a sua realização. Realizações: 1) uma ode à privatização; 2) propaganda descarada do governo Fogaça.

De fato, Porto Alegre respira cultura. Entretanto, eventualmente, é sufocada pelo fedor de carniça.

Fonte: http://rsurgente.opsblog.org/

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