primitivo

É difícil não ter, em relação a Aécio Neves, aquela reação famosa do desprezível Roberto Jefferson: por tudo o que fez contra a democracia e o respeito ao voto popular, é compreensível que, a muitos, desperte os instintos mais primitivos de vingança.

É verdade e não é diferente em mim e em muitos.

Mas, à diferença de Jefferson, não podemos ser selvagens ou primitivos contra os princípios da presunção da inocência, ao preço de nos tornarmos “dallagnóis” que condenam e querem prender a princípio e a todos que lhes são desafetos. É como justificam, afinal, o sequestro da condução coercitiva em relação a Lula.

A questão, em relação a Aécio Neves, é se a prisão teria alguma utilidade para a preservação do processo legal. E existem, como estão sendo aplicadas agora, medidas que lhe barram a capacidade de interferir e que, finalmente, o Senado fez aplicar.

Por isso, reproduzo um trecho do artigo de Luís Costa Pinto, hoje, no Poder360, do qual, por economia, omito a parte inicial do seu duro diagnóstico sobre o ainda senador mineiro, que “sempre esteve na gênese da crise política que paralisa o Brasil” e, inconformado com a derrota eleitoral, “aliou-se ao presidiário Eduardo Cunha e à camarilha que cercou Michel Temer na tomada do Palácio do Planalto”

Costa Pinto dá, a meu ver, a necessária medida de separação entre o que Aécio merece, mas que ninguém deve dar-lhe senão com o processo legal a que ele – ou qualquer um – tem direito. E, sobretudo, como diz ele, o prudente equilíbrio “para que a Justiça se distancie de justiçamentos”.

Ao contrário daquele que se deixa levar pelo instinto primitivo da vingança, não somos selvagens.

O fim que um mau político merece

Luís Costa Pinto, no Poder360 (trecho)

Aécio, na oposição, alimentou-se da soberba da expectativa de poder e nutriu-se da disseminação do ódio. Apostou alto na divisão do país. De um lado havia, para ele, a “esquerda”, os “bolivarianos”, os “esquerdopatas” e os “lulopetistas”, como se referia àqueles que estavam do outro lado e aos que ousavam divergir de sua forma obtusa de enxergar o mundo. Do outro lado era o “nós”, o “centro”, os “certos”, os “liberais”, a “resistência” para ele “sempre certa”. A partir daí, negou-se a fazer qualquer inflexão do centro à esquerda. Mas promoveu cornucópias com a direita escroque, do Bolsonaro, com os desmiolados de movimentos como MBL e VemPraRua e com legiões de corruptos e de corruptores.

Escapando do veredito de prisão imediata que o STF não lhe deve conceder amanhã, o maior castigo que Aécio Neves receberá será a resignação a assistir dentro do próprio corpo ao definhamento e aniquilamento de sua carreira política e ao enterro da trajetória dos Neves tão cuidadosamente honrada pelo avô. Ao Senado não cabe outra coisa que não seja cassá-lo –e terá de fazê-lo com celeridade maior do que o calendário do Conselho de Ética pretende. Sem mandato, será julgado em 1ª instância e poderá escapar de uma ou outra imputação, mas não escapará de todas. Certamente cumprirá alguns anos de pena na cadeia. Esfacelou a família, núcleo que hoje se ressente da irmã Andréa e do primo Federico, presos.

Não se deve desejar vingança a Aécio Neves, apenas a imposição da Justiça. Ela virá. Crer que o Supremo possa antecipar uma condenação é coonestar o justiçamento –e a maturidade institucional do Brasil não merece isso. Aécio merece fechar os olhos e refletir sobre todo o mal que causou a si, aos seus e aos adversários que sempre enxergou com a pequenez dos inimigos e jamais com a altivez dos rivais.

Fonte: http://www.tijolaco.com.br/blog/prender-aecio-julgado-sim-agora-e-ceder-aos-instintos-mais-primitivos/