Gente de todas as idades lê meu blog. Tem gurizada como o Luis Tusi, o Lemes, o Jerônimo Görgen, o dep Lara, a Juliana Leal, o Nemitz e tantos outros.
A maioria dos jovens de hoje , não os acima citados,nunca queimou pontes e talvez nunca o faça.
Começa por não nascerem ” em domicílio” como eu. A maioria nasceu no hospital, a maioria de cesariana, muitos não mamaram no peito. Já é uma desvantagem.
A maioria foi, no primeiro dia de aula, acompanhado da mamã, que até, se brincar, terá ficado na aula até pararem de chorar.
Quase todos mandaram a mãe ou a vovó para a fila quando aquilo que lhes interessava demandava de espera, como a matrícula.
É provável que os pais os levaram de carro até o local do vestibular e ficaram conferindo os gabaritos . Novamente as mães devem ter ido junto fazer a matrícula ( e é claro colocado aquelas faixas ” Valeu.. fulano” ( que criatividade, hein?).
Pais e mães devem ter ajudado ou procurado a achar uma CCzinha básica.
E, finalmente, como hoje em quase todo o mundo, ainda vivem com os pais, mesmo tendo 40 anos.
Havia um tempo em que você tinha de queimar as pontes. Não tinha mais volta.
No interior não havia faculdades, mesmo em cidades prósperas como S. Cruz.
A solução era, aos 17 anos ou antes, arrumar os trapinhos dentro de uma mala e sair para P. Alegre, arrumar um emprego de meio turno, morar numa pensão com mais seis caras nos beliches e um banheiro só em toda a casa, geralmente abrigando 40 barbados. E uma geladeira só, onde seu pão com mordadela dormia e não amanhecia ( legítima defesa da fome). Você tinha que lavar pesssoalmente suas cuecas e camisas e ir alternando suas duas únicas calças e seus dois únicos sapatos Vulcabrás. Tinha que comer no RU ( Restaurante Universitário) meio que desprezando algum bichinho que aparecesse no feijão. Ir para casa visitar os pais? era fácil. Era só ir na rua Hoffmann ali na Voluntários e pegar carona em um caminhão. Transporte escolar? nada disso. Era a pezito no más.
Chopp? fácil, a gente se metia no Alaska, que era ali na Sarmento, perto da Arquitetura e ficava cuidando quando algum cara fosse ao banheiro, numa mesa restavam copos pela metade. Era disfarçar e tomar o resto.
Tá, mas já é muito devaneio e relembrança.
Na formatura muitos pais não vinham porque tinham que cuidar da lavoura de fumo ou de seus bolichos de colônia. Não tinha nada de especial, salvo o detalhe de você ter o diploma de uma faculdade RENOMADA e realmente ter construído uma sólida cultura, que lhe abriria todas as portas.
Concurso. Aprovação. Tomar posse.
Podia escolher? Sim, mas não tinha filé.
Minha primeira comarca foi Horizontina, isso nos anos 70.
Viagem de carro. Atulhado de livros e malas. Era tudo o que eu tinha.
O asfalto terminava em Carazinho. Dali em diante era só barro vermelho. Apesar de ter saído cedo de P. Alegre, tive de pernoitar num hotelzinho na frente da Rodoviária de Ijui, ouvindo roncos de ônibus o tempo inteiro.
Cheguei meio dia de um domingo em Horizontina, em janeiro. Parecia que uma bomba de neutrons tinha caído ali. Ninguém nas ruas ( nas poucas que havia). Cheguei num Posto de Gasolina. Um cara , sentado numa cadeira de palha, palitava os dentes.
- senhor: qual o mehor hotel daqui?
O cidadão deu uma risadinha:
- só tem um e está fechado, os donos estão de férias numa prainha do rio Uruguai.
No outro dia eu tinha que assumir. Ninguém me esperava, o telefone era a manivela.
E agora?
E agora eu tinha que dar um jeito, tinha queimado as pontes que ficaram para trás.
Continuo outro dia.
( mas que naquele dia chorei, bem pouquinho, mas chorei, porque tive que voltar para Três de Maio, 30 kms de barro e pernoitar lá…)
Fonte: http://blog.gessinger.com.br/
Diz o blogueiro – prezados leitores este texto é magnífico pela sua simplicidade. Esta é a razão que me faz postar com frequência os textos do Ruy. Ele é um cara simples, aberto e sem frescuras. Abre a alma, coisa pouco comum, especialmente por parte daqueles que se dão bem na vida como é o caso dele. Só espero que dê logo continuidade ao mesmo.


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