REQUIEM PARA AS CARTAS

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29 de Junho de 2009 às 17:53 Ruy Gessinger

Quantas poesias, crônicas, livros, canções, foram dedicados às cartas. Love Letters, Cartas de Amor.

Nas línguas que eu compreendo, há inúmeras obras de arte tendo-as por objeto. E aí entra o carteiro, a espera por ele, a aflição da espera. Em vários países havia o Correio Aéreo. Nas guerras, eram as portadoras de más e boas notícias. Mas sempre indispensáveis. Cartas foram elemento de convicção em várias ações com as quais tive contato: foram prova em ações de investigação de paternidade, provas de adultério, provas até de crimes.

Geralmente, no entanto, foram usadas para transmitir amor, afeição, amizade.

A informática, tão benéfica, trouxe, no entanto, em seu bojo, a inexorável sentença de morte das missivas escritas.

Tenho um querido e bom amigo de minha idade. Nossos pais foram amigos. Estudamos juntos todo o ensino básico, cursamos juntos a faculdade e tivemos, por dois anos, sociedade num escritório de advocacia. A partir dos 26 anos passamos a morar em cidades diferentes. Ele hoje vive em Florianópolis. Até há uns dez anos nos mandávamos cartas. Isso implicava escrever a mão, dobrar, fechar o envelope e o levar ao Correio.

Meu amigo não se amansou no Computador, negou sua existência, assim como não quis saber de celular , nem de CDs. Não sabe fazer home banking.

Nossos contatos passaram a ser feitos por telefone fixo, o que hoje não é prático.
Ele continuou a me mandar cartas por alguns anos. Eu as respondia mandando mails para seu filho, a quem pedia que os imprimisse e entregasse a ele. O filho dele fez isso duas vezes e depois não mais.
Nossa amizade mermou. Ficamos distantes.
Fui visitá-lo um dia, depois de anos de ausência. Nossa conversa durou só 15 minutos. Tínhamos mudado os dois.
Abrimos um vinho e colocamos na vitrola dele um LP: Requiem de Wolfgang Amadeus Mozart.

Ouvimo-lo até o fim em silêncio. Nos despedimos dispensando-nos um ao outro de comparecer as exéquias do primeiro que partisse.

Fonte: http://blog.gessinger.com.br/

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