A volta às aulas é um acontecimento aguardado por quem gosta de estudar, de ir à escola, de reencontrar os amigos e colegas. Poderia surpreender que jovens organizassem um tiroteio antes de começarem o ano letivo. Esta volta às aulas parasitou o famoso domingo na Redenção com um tiroteio entre gangues adolescentes, com direito a cinco baleados, um em estado gravíssimo (que acabou morrendo na manhã desta segunda). E isso não é mais assombroso…em Porto Alegre.
Pode-se ver mal estar em toda parte, quando os olhos estão enfermos; mas, não está um pouco além da conta? Quando é que o mal-estar sai do domínio impressionista e passa a fazer sentido na descrição do estado das coisas?
Dizer que a quantidade de moradores de rua, alguns em surto, nas calçadas, imundos, ausentes, aumentou não é impressão. Andamos sentindo cheiro de fezes humanas em canteiros, desviando de corpos ao relento para cujas remoções os brigadianos oferecem eficiência constrangedora. Ao redor do supermercado de bairro, um dos últimos, crianças, adolescentes com seus filhos ou sobrinhos ou irmãos e os habitantes da calçada do super que, quando estão acordados é porque estão ausentes, depois de jogarem seus cachimbos fora. Isso adoece os olhos ou vice-versa?
Nos fins das tardes, famílias e restos de famílias se dedicam a abrir os sacos de lixo espalhados nas calçadas. Não é coleta seletiva, entendem o que estou tentando descrever sem torná-los indignos, os catadores de lixo? Não parece autoritário tornar exigível dos trabalhadores contratados para recolher o lixo que eles juntem todos os pedaços de papel higiênico oferecidos a céu aberto pelo bairro, juntamente aos restos azedos de arroz?
Bizarro é trazer para casa o saquinho das fezes do seu cão, para não deixá-lo nas lixeiras, onde pode contaminar o cheiro de um hambúrguer deixado pela metade, vá se saber. Compaixão desagradável.
A prefeitura de Porto Alegre devolve rotineiramente recursos da área da assistência ao Ministério do Desenvolvimento Social, por falta de projetos onde aplicá-los. São milhões, devolvidos à União, por falta de políticas públicas. Um ginásio de esportes, um teatro e professores de música custariam muito? Quantos adolescentes escolheriam livremente o tiroteio, tivessem escola, lazer e arte, conhecimento? Não, não carece tecer considerações sobre família. Não carece mais. Não é do mundo privado que há falta; ou pelo menos a falta que importa, a que decide.
Um dos jornais da prefeitura anuncia alegremente o retorno às aulas dos alunos do Colégio Farroupilha e do Anchieta, cotidiano da primeira volta às aulas. A segunda, aquela das balas no parque, dispõe de páginas policiais, por ora. Só um celenterado acredita que a repressão a essas gangues de adolescentes sem futuro publicamente assegurado será noticiada. Embrutecimento não é impressão, mas maneira de definir as coisas como estão.
Quando o mal estar se instala e a capacidade de assombro se esvai, o banditismo comanda. Bala não é impressão, embora seja, sim, invariavelmente, sintoma de enfermidade do estado das coisas.
Fonte: http://rsurgente.opsblog.org/




Comentários Recentes