Tratamentos opostos para o mesmo tema

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18 Janeiro 2010

Um exemplo de como um mesmo assunto pode ser abordado de formas completamente diferentes se deu essa semana, em textos sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) e, em especial, sobre a postura do ministro da Defesa, Nelson Jobim. A Zero Hora deste domingo, dia 17, e a Carta Capital dessa semana trataram do tema.

Embora o jornal gaúcho tenha enfocado mais o ministro Jobim e a Carta tenha aberto um pouco mais o tema, eles são passíveis de comparação porque a matéria da revista semanal é mais ampla e trata de Jobim durante boa parte de seu texto. Já nota-se, aí, a diferença de tratamento.

A Zero Hora usou o PNDH como pretexto para fazer quase que um perfil do ministro. Ele é definitivamente o foco principal das atenções, mas sempre no mesmo tom: o jornal mostra como Jobim se destaca por ser uma liderança, ter voz ativa no governo, muito poder, coerência. Traz sua trajetória política para justificar suas posições e não questiona as atitudes de Nelson Jobim.

Duas páginas são dedicadas à reportagem, assinada por Carolina Bahia, Humberto Trezzi, Iara Lemos e Leandro Fontoura. A primeira e principal delas faz uma ligeira menção, já da metade para o fim do texto, ao fato de a postura do ministro não ser unanimidade, mas todas as fontes – todas! – são favoráveis a ele. São sete, algumas do governo, outras da oposição, mas todas falando dos benefícios que Jobim teria agregado ao Ministério da Defesa. A contestação vem na outra página, de forma mais discreta. Mesmo nela, ainda há espaço para uma entrevista com um militar que rejeita qualquer tipo de revisão da Lei da Anistia – e apoia Jobim.

A Carta Capital, por sua vez, em texto de Gilberto Nascimento que ganha a capa da edição, não dá o foco central de seu texto a Jobim, mas à repercussão da polêmica do PNDH que tem relação direta com sua pasta, ou seja, a questão da criação de uma Comissão Nacional da Verdade, com o objetivo de investigar violações aos direitos humanos cometidos durante a ditadura militar. Aparentemente um detalhe, essa diferença no foco do texto é gigante. Demonstra a que aspectos da questão cada veículo confere mais importância.

A revista mostra como o tema efetivamente é polêmico, ressaltando que do lado que gerou a discórdia em relação aos termos usados no PNDH estão os militares. São eles que questionam a investigação pelos atos desumanos cometidos pelos seus. E são eles que Jobim representa, o texto deixa claro.

Zero Hora também enfatiza que Nelson Jobim está no governo para defender os interesses dos militares, mas mostra isso como algo claramente positivo. Carta Capital, por outro lado, questiona até que ponto essa defesa incondicional da corporação é correta para um ministro de Estado. Propositadamente civil, diga-se de passagem.

* Documento da Conferência Nacional de Cultura, a acontecer entre 11 e 14 de março, traz críticas ao monopólio dos meios de comunicação, corroborando o relatório final da Conferência Nacional de Comunicação, ocorrida em dezembro de 2009.

Postado por Cris Rodrigues

Fonte: http://jornalismob.wordpress.com/

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