UM POUCO DE HISTÓRIA : GETÚLIO DIAS , UM POLÍTICO INESQUECÍVEL

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Paulo Timm

O tempo é implacável. Apaga tudo. As dores, os amores, até os rumores…Daí a importância dos escritores, que registram para a posteridade o que viram e ouviram. Fazem como a geologia que grava em sitio arqueológico um tempo imemorial.

Em época de eleições, por exemplo, lembrarei de um político gaúcho ímpar: Getúlio Dias.

Getúlio Dias, nascido em Pelotas, em 1938, foi um dos políticos mais ativos e promissores do último quartel do Século XX, no Rio Grande do Sul. Vozeirão de pajador – era capaz de declamar com inigualável talento as mais belas paginas da poesia creolla- , chegado às boas paixões do mundo, fez jus ao prenome, permanecendo sempre fiel ao ideário trabalhista. .

 Desafiou a ditadura militar com discursos provocantes no Congresso, tendo sido preso nos primeiros meses da ditadura de 1964. Quando morreu o então presidente Costa e Silva e uma junta militar assumiu o comando do país, no lugar do vice-presidente Augusto Radmacker, não titubeou ao afirmar que a Praça dos Três Poderes havia sido transformada no “poder dos três praças”. Anos mais tarde, em pleno recinto do Tribunal Superior Eleitoral, na noite em que a sigla do PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO foi dada a Ivete Vargas, em detrimento da postulação de Leonel Brizola, Getúlio sofreria seu último processo quando, emocionado, desabafou: “Transformaram este Tribunal na latrina do Palácio do Planalto”.
Seu grande momento parlamente foi o mais comovente discurso da Sessão Parlamentar que aprovou a Lei da Anistia em 1979, há exatamente 31 anos.  Verdadeiramente imortal. Getúlio morreu em Brasília em 2002, vítima de complicações circulatórias, aos 68 anos em pleno vigor físico. Meses antes havia estado em Pelotas, já rompido com seu ex-aliado e ex-Prefeito Irajá Rodrigues, trocou seu domicílio eleitoral e na campanha municipal emprestou seu apoio e prestígio ao candidato da Frente Popular.
Formado em 1967, foi eleito vereador pelo PTB na legislatura 1960/1963 e reeleito entre 1964 e 1967, tendo o mandato prorrogado, já no MDB, até 31 de janeiro de 1969.
Tentou ser deputado federal em 1966, ficando com a segunda suplência. O primeiro suplente foi Alceu Collares. Em 1970 pelo MDB elegeu-se deputado federal com 32.219 votos e foi reeleito em 1974 com 77.861 votos. Alcançou o terceiro mandato em 1978 com 62.819 votos. Em 1979 comparece à Lisboa atendendo ao chamado de Leonel Brizola para o Encontro dos Trabalhistas para a reorganização do PTB e se dedica com afinco a este projeto depois da reorganização partidária, em 1980. Em1982 concorreu, pelo PDT,  ao Senado, tendo recebido 730.069 votos.

No início dos anos 1980 um fato curioso no seu apartamento, em Brasília, quando ofereceu um jantara a Leonel Brizola, recém-chegado do exílio, e à pequena bancada do PDT. Brizola falava com desenvoltura sobre seus planos para a reorganização do trabalhismo no Brasil e insistia:  “Eu não perco eleição”. Aliás, lamentou, ali, sua “única e imperdoável” derrota, 30 anos antes, para a prefeitura de Porto Alegre, atribuindo-a à desastrada contratação de Osvaldo Sangentelli e suas mulatas seminuas para animar os comícios, um escândalo na época. Mas não fora  Sargentelli e sim Colé, segundo correção feita oportunamente por  Enio Meneghetti, neto de Ildo Meneghetti,  quem iria derrotar o candidato à sucessão de Brizola em 1960, Egidio Michaelsen.. Curiosamente, pouco mais de dez anos depois, o próprio Getulio Dias, derrotado nas eleições para o Senado pelo Rio Grande do Sul , vai para o Rio de Janeiro e se torna sócio do Sargentelli num Restaurante de estilo turístico, em Copacabana, com show ao vivo de belas mulatas por ele arregimentadas

Era casado com Zoé Dias, falecida em 2004,  e tinha os filhos Uil, que foi vereador em Pelotas, Ian, Advogado e Assessor da Bancado do PDT na Câmara dos Deputados e Air, além de uma filha – Lara – de uma relação extraconjugal. O nome desta filha respondeu ao encanto de Getúlio, não só pela amante, mas pelo filme Dr. Jivago, que havia marcado sua vida. Lara, como todos lembram, era a paixão secreta do Dr. Jivago, que lhe perseguia ao longo de situações as mais surpreendentes, provocadas pelos desvarios da Revolução russa de 1917. Com ela Jivago viria a ter uma filha, que fica órfã, perdida no torvelinho da revolução russa.  E como a vida imita a arte, tanto no filme como na vida real, a filha de Getúlio Dias,  Lara, que conheci criança ,  também fica órfã de pai e mãe. Hoje é médica e deve se honrar muito deles, os quais foram meus amigos fraternos por anos a fio e churrascos a porfio.

Paulo Timm é editor do blog http://www.torres-rs.tv

4 Respostas to “UM POUCO DE HISTÓRIA : GETÚLIO DIAS , UM POLÍTICO INESQUECÍVEL”

  1. Mauro Berres disse:

    Conheci Getúlio Dias. Como ele dizia em seus comícios durante o regime militar: “…esses milicos…”. Belo texto. Parabéns.

  2. cida saraiva disse:

    conheci esse homem alegre e cheio de vida ,, dr, getulio e namorei seu filho uil fico imaginando como seria se le ainda estivesse vivo obrigada atenciosamente cida

  3. Darlene Sabany disse:

    Muito bom o seu texto, é importante manter a memória viva, não sei se em Pelotas existe algo para lembrar a memória dele, embora discordasse das ideias dele e de meu pai, Florencio, sempre compreendi a importância destes bravos homens no período da ditadura militar. Parabéns!!

  4. Lara disse:

    Olá Timm!
    Conefesso que estou particularmente emocionada com sua mini-biografia sobre o meu PAI. Ele realmente foi uma pessoa singular, de quem muito me orgulho e admiro e com o qual gostaria de ter convivido muito mais, mas como não costumo contestar os desígnios de Deus, apenas tenho a agradecer pelos exemplares maravilhosos de seres-humanos que tive o prazer de chamar de PAIS. 
    Me lembro com muita nitidez da sua presença nos churrascos lá em casa e do especial apreço que meu pai tinha por você, apesar das calorosas discussões políticas que se tornavam inevitáveis a medida que a tarde caía… Homem de opiniões praticamente imutáveis, aquele Getúlio rs
    Hoje, sou advogada (e não médica rsrs), talvez devido a uma grande influência dele, moro em Belém do Pará há mais de 15 anos e tenho um filho lindo que está prestes a completar o seu primeiro ano de vida e adivinha só qual é o nome dele? Isso mesmo, como não não poderia deixar de ser, essa foi a homenagem que dediquei ao meu amado pai, do qual o pequeno Getúlio muito ouvirá a respeito e também se orgulhará de carregar esse implacável nome!
    Um beijo grande,
    Lara C. Iglezias Dias

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